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日志


2009/10/18

A MIRÍADE DO OBJETO

Acabo de terminar a redação da tese. É certo que o trabalho não foi definitivamente concluído. Talvez tenha começado a parte mais minuciosa, que é a revisão detalhada, a leitura geral escrutinada e a tradução para o francês. Ao mesmo tempo em que tenho consciência de todas essas tarefas a serem cumpridas, tenho a boa sensação de algo fechado, concluído (mesmo que parcialmente), acabado...

 

Fico aqui a pensar, isso me parece inevitável, no percurso, no caminho, na estrada doutoral que vivi pé a pé, passo a passo, emoção a emoção. Algumas abstrações eu extraiu dessa aventura toda, sobretudo no que diz respeito à minha aprendizagem profissional e pessoal, fruto das experiências todas. Dito isto, aqui focarei apenas uma milésima parte, que é a busca de um objeto (de pesquisa) perdido ou que se pretende encontrar.

 

A miríade do objeto de pesquisa se configura em seu começo como um esboço, uma idéia relativamente delineada que o pesquisador faz em seu projeto de pesquisa. A miríade é justamente um quantum, uma quantidade indeterminada, porém grandíssima de tudo aquilo que se deseja buscar (obviamente apoiado pelas metodologias, sejam elas as mais “duras” ou as mais “moles”).

 

Ao final da jornada, resta ao pesquisador a percepção de uma espécie de resultado dos jogos de espelho, em que os reflexos construídos do objeto, que sofreu transformações (as vezes mínimas, as vezes drásticas) ao longo da pesquisa, configuram-se como uma imagem composta como aquela que surge em um caleidoscópio.

 

Ao chegar na derradeira fase da tese, tenho a sensação de dever cumprido, mas também de inacabamento.  Muito provavelmente, esta ambígua sensação tem a ver com a ilusão do pesquisador que, como o viajante perdido no deserto, percorre uma determinada trajetória em busca do oásis enquanto efeito provocado pelas condições do próprio deserto. O pesquisador também percorre um caminho a partir da miríade do seu objeto. Este, em si, nunca será alcançado porque não existe em si e porque é sempre escapável. Apesar dessa inútil busca, o esforço não deve ser desprezado, pois é justamente por causa da busca que se produz o conhecimento, não em alcançar, mas em percorrer.

 

Foi, portanto, na “estrada” desse projeto e desta tese, que pude testemunhar uma série de construções e descobertas que fizeram sentido no limite proposto pelos objetivos e questões da própria pesquisa.

2009/7/24

Frio na barriga

Confesso que estou relativamente ansioso em relação a tese. Os três primeiros capítulos já estão prontos (é bem verdade que sempre há que se retornar a ele e modificá-los). Sinto-me a pleno vapor para o quarto capítulo, que é a análise e discussão dos dados. Estes, os dados, estão todos (em forma bruta) já coletados. Agora o que resta é quase que um trabalho “braçal”. É preciso sistematizar as informações, escrever e revisar, lendo e corrigindo atentamente tudo. Não vejo a hora de acabar com tudo isso. Às vezes fico muito saturado com o assunto, com o que resta a fazer. Sei que o momento agora é esse mesmo. É hora de persistência, é hora de manter e de insistir no que foi iniciado. Sei também que muitos outros desafios ainda restam, como por exemplo, a defesa. Agora sinto um frio na barriga.

Marta Anadon em Senhor do Bonfim, Juazeiro e Petrolina

Para minha alegria, Marta Anadón esteve em Petrolina/Juazeiro. Ela veio para dar um curso sobre pesquisa-ação. É claro que aproveitei para ter com ela uma valiosa supervisão. Eis algumas fotos da passagem dela em terras são-franciscanas:

Entre férias e trabalho

Tudo organizado, pelo menos na minha cabeça. Nas férias, tiraria algumas semanas longe de todos e de tudo. Embrenharia-me no meio da caatinga onde nem celular pega! Lá, iria escrever sossegadamente os capítulos finais da tese. Ledo engano! As férias chegaram e lá partir com a família e tudo. Fomos para a casa dos meus pais. Tudo se repetiu: barulhos, cobranças, meninos chorando, gostosas bagunças, boas tentações e toda sorte de distrações para quem havia se prometido uma fuga ao paraíso de alguma tranqüilidade. E de novo tive que encontrar o ponto de equilíbrio entre as demandas familiares, as distrações e a necessária concentração e tranqüilidade para escrever. Aceitei meu destino e consegui, sem grandes contrariedades, dar conta dos recados. Acho que estou apreendendo, de fato, o tema da minha pesquisa!

2009/6/9

DE VOLTA AO COMEÇO...

 

 

DE VOLTA AO COMEÇO

Chegando perto do final da minha aventura doutoral (meu projeto é fazer a defesa no final deste ano – 2009 – ou no início do ano que vem – 2010) sinto a necessidade de retornar a alguns pontos dessa rica itinerância. “De volta ao começo” será uma espécie de retomada de algumas experiências marcantes e que surge agora como forma de despedida de uma parte importante da minha vida. Alguns capítulos seguirão...

 

DE VOLTA AO COMEÇO - 1

Parece que foi outro dia. Lembro da triste despedida no Aeroporto 2 Julho, em Salvador, quando embarquei pela primeira vez para o Canadá. Sabia que aquela primeira incursão em Terras do Norte iria demorar muito e que a saudade da minha família seria forte. Olhei para meus filhos, minha esposa, minha mãe, irmão e meu pai. Estávamos tristes. Respirei fundo, dei o cartão de embarque ao responsável, enxuguei as lágrimas e parti.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 2

Ao mesmo tempo em que a tristeza era grande, a ansiedade da viagem e o gosto da aventura também competiam entre si. É difícil qualquer tipo de descrição para chegar ao que sentia naquele momento. Era importante também manter-me bem alerta para os míninos detalhes da viagem. Eu precisava estar atento a todos os passos, a todas as chamadas dos aeroportos, aos documentos que portava e os contatos anotados na agenda. Afinal, iria para um país estranho que eu mal sabia pronunciar uma palavra no idioma.

 

DE VOLTA AO COMEÇO - 3

Cheguei à Toronto. Se falar em francês seria uma complicação, imagine falar em inglês! O aeroporto era enorme e teria que fazer ainda uma conexão. Meu Deus! E agora? Eu fui que nem um boi que segue a boiada. Nessas horas a intuição e a aguda observação nos detalhes dos avisos são preciosas. Finalmente chegou a hora de entrar no avião que iria para Montreal. Opa! Algum problema. Esqueci a tesourinha na minha pasta! O sensor acusou e uma funcionária do aeroporto me interrogou. Em um primeiro momento não entendi muito que ela dizia. Perguntou se eu era italiano. Disse que era brasileiro e nos comunicamos em um tosco espanhol. Finalmente entendi que foi por causa da tesoura e disse que não haveria problema. A tesourinha poderia ficar como recordação.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 4

Chego à Montreal e lá está Fernando. Tenho uma sensação de alívio. Parecia que o pior havia passado. Afinal, encontrara alguém conhecido e que falava minha língua! Seu sorriso foi acolhedor (como sempre haveria de ser). Entretanto, o percurso não havia acabado. Faltava ainda enfrentar seis horas de viagem de ônibus rumo à Chicoutimi. Era junho de 2005, portanto, verão no Canadá e fazia muito calor em Montreal. O dia estava bonito. Fernando fez questão de mostrar rapidamente alguns pontos do centro da cidade. Era o tempo suficiente para aguardar o horário de embarque no ônibus. Finalmente nos despedimos e entrei no ônibus, novamente solitário e indo para um lugar mais longe e mais desconhecido ainda.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 5

Estava tudo acertado. Minha orientadora havia organizado minha estada nos primeiros meses em Chicoutimi. Faria um curso de imersão em francês. Era o programa de verão da UQAC, versão 2005. Ficaria hospedado na casa de uma família durante o período do curso, os três meses. A pessoa iria me pegar no terminal rodoviário. Georges Boivin era o seu nome. Não tínhamos idéia de como era um e o outro. Cheguei à Chicoutimi muito cansado. Foram três horas de Salvador à São Paulo, onze horas de vôo de São Paulo à Toronto, duas horas de Toronto à Montréal e seis horas de ônibus de Montreal à Chicoutimi (sem contar as horas de conexão e espera). Por outro lado, a ansiedade era tanta que não me dava conta do esgotamento. Georges me aguardava em seu bonito Chrysler. Sem nos conhecer, adivinhamos um ao outro. Trazia umas duas malas pesadas, fora uma mochila e minha pasta. Era bastante coisa, mas tudo deu no carro. Agora estava eu lá! E para conversar? Meu Deus! Que aflição! Lembro que Georges fez questão de mostrar um pouco a cidade. Levou-me até o cruzeiro, onde pude apreciar a beleza daquela encantadora cidade a beira do rio (qual?). Senti frio e George riu de mim. Afinal, era verão no Canadá!

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 6

Meu primeiro dia de aula. Estava uma semana atrasado. Havia seis níveis de cursos e o meu era o nível um. Nós éramos considerados os bebês do programa. Minha sala era formada, em sua maioria, por jovens de 18 anos e quase todos eram anglofônicos canadenses. Alguns eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia também estrangeiros como eu. Lembro de uma estadunidense e, lógico, meu primeiro e grande amigo iraniano, Behdad Balazard. Como era difícil para mim toda aquela adaptação. Sentia-me totalmente incompetente para aprender o francês. Tinha a sensação de que nunca iria ser capaz de aprender. Eu era um dos mais velhos, professor universitário e iniciando um programa de doutorado, mas isso tudo só me fazia sentir pior. A auto-cobrança pesava. Eu sabia que não tinha muito tempo para aprender o mínimo do francês, pois as aulas do doutorado começariam em setembro daquele ano. Aprender uma língua na situação que me encontrava foi um parto a fórceps. Vivi, literalmente, uma regressão não só por estar iniciando uma nova língua. Percebia que meu comportamento regredia. Meu humor e meus sentimentos oscilavam bastante. O sentimento de insegurança era muito para mim. Às vezes tinha horas que achava que não iria conseguir. Somado a isso, vivia toda sorte de instabilidade na minha universidade e lutava para ter uma bolsa que viabilizasse meu projeto de doutorado no Canadá.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 7

Tive a sorte de encontrar boas pessoas e ser acolhido. Tenho essa perspectiva em relação a vida. Sempre acho que a vida me reserva boas coisas e costumo, não raramente, deixar que a vida me leve. Sempre deu certo! Os colegas estrangeiros, os colegas brasileiros que lá habitavam, funcionários e professores da UQAC e pessoas da própria cidade, todos sempre tiveram algum apreço por mim. Entretanto, algumas pessoas foram muito, muito, especiais como: Marta Anadón (minha orientadora), Carlos Borri (seu marido e companheiro de boas prosas), Corina (filha de Marta e minha colega de doutorado), Jean-Robert Poulin (professor da UQAC e amigo pescador), Martine Maltais (minha querida amiga que tanto me ensinou sobre a educação infantil), Behdad (meu primeiro e grande amigo no Canadá), Justine (amiga do Camarões e colega do doutorado), Georges (meu senhoril), Fernando (amigo e colega da UEFS), Régis (cearense que virou canadense), Carlos Ores (peruano que fazia seu mestrado em engenharia de minas na UQAC) e tantos outros que não conseguiria listar todos.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 8

Foi uma verdadeira luta batalhar por uma bolsa. Da minha universidade tive uma ajuda de custo mais o salário. Cheguei a me inscrever duas vezes para obtenção da bolsa CNPq. Na segunda inscrição, passei para segunda fase (entrevista) na repescagem, porque escrevi protestando o resultado. Fui para Brasília fazer a segunda etapa e na entrevista ouvi de um dos membros da banca que o meu tema já era muito estudado no Brasil. Fui classificado, mas não contemplado para bolsa. Lutei tanto e “morri na praia”. Por um lado ficou o aprendizado e saí dessa experiência com a “pele mais grossa”. O que me salvou foram as bolsas parciais que obtive na própria UQAC - graças a minha orientadora. Em troca, fazia traduções (francês-português) para ela e para outros professores. Além disso, trabalhei como professor de português e ajudante de jardinagem (na casa de Jean-Robert). Tudo isso ajudava a pagar o programa do doutorado (para estrangeiro era muito caro, mas se comparado com outros programas pagos de outros países não é caro) e a me manter no Canadá.

 

DE VOLTA AO COMEÇO – 9

Que alívio eu senti quando minha orientadora retornou de suas férias e a reencontrei em Chicoutimi. Não estava mais desabrigado. Sabia que havia um porto seguro perto de mim. Mas como essa aventura doutoral era sempre uma caixinha de surpresas, novas coisas me aguardavam. Chegou a hora do início das aulas do doutorado. Meu Deus! Lá vou eu de novo! Lembro do primeiro dia de classe. Disse para mim mesmo: “Marcelo, que merda você veio fazer aqui!?”. A coisa piorava quando eu tinha que falar. O meu francês ainda era muito ruim para ter um desempenho razoável em sala de aula (entendia bem, mas fala com limitações). Tive vontade de me transformar em uma formiga e ficar no canto da sala sem ninguém me ver quando chegou a hora de apresentar meu projeto aos colegas e a banca de professores. Mais uma vez sobrevivi.

 

 

 

2009/4/19

Vergonha na cara

Parece que tenho tomado vergonha na cara. Aos poucos estou voltando ao trabalho da tese. Nesse momento final que me encontro não tenho mais saco de fazer grandes recenseamentos literários sobre o assunto. Aliás, nem deveria! Preciso me concentrar justamente na fase final, o que me impele a ter uma postura diferente do começo da tese, o que também não impede de continuar com as leituras e com as buscas teóricas ou descobertas de outras experiências.  A verdade é que tenho lido muito revistas de popularização sobre educação infantil. Essas revistas têm sido ótimas, pois trazem reportagens, resenhas de livros, textos curtos e específicos sobre os assuntos que me interessam. Tenho tido condições de manter uma leitura ampliada sobre o assunto e, ao mesmo tempo, tenho conseguido “pescar” coisas interessantes para a minha pesquisa em geral. Mas o interessante é que justamente no final da minha aventura tenho descoberto nessas revistinhas (não há sentido pejorativo aqui) um valor incrível, coisa que no começo certamente não valorizava!

 

Para quem quer conhecer um pouco mais dessas revistas sugiro a leitura, por exemplo, da Revista Educação Infantil (editora Segmento).

 

Voando entre Recife e Petrolina, 2009.

Não estamos sós

Vivi uma sensação de alívio quando descobri que não sou apenas eu. Isto aconteceu em uma das minhas viagens para Brasília quando encontrei um colega que é professor da UNEB.

Freud já há muito falava do quanto a humanidade poderia ganhar em termos de saúde mental se descobrisse que a desgraça individual fosse uma infelicidade coletiva. Isto significa dizer que sofremos muito ao acreditar que só nós, individualmente, único ser em todo o mundo, carregamos certa experiência dolorosa. Por outro lado, quando descobrimos que não estamos só, que existem outros vivendo experiências semelhantes, sentimos um certo reconforto e a infelicidade da amarga experiência, seja ela qual for, passa a ser mais suportável.

Realmente, estava me sentindo super mal com o fato que não produzir quase nada em relação ao meu projeto doutoral. Havia muita cobrança interna para trabalhar na tese e, ao mesmo tempo, a coragem e determinação para colocar isso em prática não surgia. Junto a isso, me envolvia com os afazeres do dia-a-dia da universidade que trabalho de tal modo que me consumia por completo.

Reencontrei meu colega no saguão do aeroporto de Recife e, enquanto esperávamos o vôo da nossa conexão, batíamos um papo sobre as nossas andanças acadêmicas. Ao relatar o meu estar e tudo mais ele confidenciou-me que estava passando situação semelhante. Também havia se envolvido com várias coisas e que não estava conseguindo se dedicar integralmente para finalizar seu doutorado. Depois disso, demos risada porque pudemos compartilhar nossas mazelas e perceber que não estávamos sós!

 

Voando entre Recife e Petrolina, 2009.

 

2009/3/1

VINDO DAS ENTRANHAS - AS CONTRADIÇÕES QUE ME MARCAM

No meu mestrado uma das coisas que mais me marcaram foi o que aprendi com as minhas orientadoras/professoras: Marta Anadón e Stella Rodrigues. Elas diziam, na época que estávamos elaborando nossos projetos de pesquisa, que o nosso objeto de estudos deveria partir das “entranhas”. Elas estavam querendo dizer que para haver genuinidade no processo de investigação, o objeto de estudo deveria dizer respeito a algo que fosse realmente significativo para quem estivesse pesquisado. Pois bem, sobre este doutorado onde investigo o ajustamento de rotinas de professores da educação infantil face às situações de imprevisto, percebo que existem duas grandes coisas que estão relacionadas com a minha existência: a rotina e os imprevistos.

 

Tanta a rotina quanto os imprevistos e o modo como tento lidar com os dois, representam dimensões profundas que têm muito a ver com o meu jeito de ser. Isto significa dizer em um primeiro momento que me entendo contraditório e ao mesmo tempo de natureza conciliadora. Tento conciliar em mim mesmo aspectos que, muitas vezes, se colocam de formas opostas ou em contradição. Não podendo ser diferente, estendo essa característica no modo como me relaciono com os outros ou como me posiciono no mundo. Percebo-me com a facilidade de transitar em mundos diferentes, em saber gostar de pessoas com estilos e formas de ser diferentes. Em mim mesmo consigo muitas vezes sair de um extremo para o outro e também me apreciar sendo “eus” diferentes.

 

Voltando para o ponto mais específico que diz respeito a essa reflexão entre o que existe de relação entre o meu objeto de estudo e a minha existência, entre a rotina e os imprevistos, diria que a primeira compreende a minha necessidade de organização, de previsibilidade, de controle, de segurança e de arrumação. Esta parte estaria mais ligada ao meu lado social, ao modo como acho que seria mais facilmente aceito socialmente. Também parece dizer respeito ao lado que me daria uma suposta progressão e sucesso na vida, sobretudo no mundo do trabalho. Gosto desse lado em relação a minha família. Gosto de ter os horários organizados para as refeições, gosto de ver os meus filhos seguindo aquela rotina diária de escola, estudos, lazer...

 

Por outro lado, a segunda dimensão representa para mim a soltura, a leveza da vida, o meu jeitão desprendido, espontâneo, despreocupado, “bicho solto” e, talvez, o que mais me marcaria como ser.

 

A grande questão, e essa seria uma questão existencial, é a conciliação entre essas duas dimensões aparentemente incomunicáveis. É justamente aí, como já falei, que configura outro aspecto da minha existência, que é tentar estabelecer diálogo entre opostos ou entre elementos que são muito diferentes.

 

Tenho me percebido, principalmente nos últimos anos (muito provavelmente por causa da maturidade), que esse meu diálogo interno/externo entre elementos diferentes, opostos e até contraditórios têm se tornado menos conflituoso e mais tranqüilo. E aí tanto a rotina quanto o imprevisto têm sido hoje imprescindíveis para minha vida e para meu processo identitário. Gosto de me ver como uma pessoa que sabe e age valorizando tanto a previsibilidade (rotina) quanto a imprevisibilidade. No fundo, no fundo, sei que o controle sobre a vida é uma ilusão e que a busca de segurança não está numa postura de defesa, de endurecimento, de medo e rigidez em relação a vida e a si mesmo. Ao contrário, sei que o melhor que podemos fazer é seguir o livre fluxo da vida, é deixar ser, é assumir a postura espontânea diante da vida. Entretanto, creio que isso não impede ou não implica em um abandono completo do ser humano em relação a sua história. Lembro-me de uma frase do filme “O último Samurai”, que muito me marcou: “Os homens fazem o que podem até o destino se rebelar”. Isto para mim significa justamente a necessidade que tenho de tentar fazer alguma coisa, representa o meu lado guerreiro, o mau lado de não se conformar com as coisas, de buscar alterar, de planejar algo, de tentar exercer alguma influência sobre o mundo, mas sem, ao mesmo tempo, deixar de saber que existe algo maior que é a natureza, o não controle de tudo, as imponderações, os imprevistos. Acho que é possível viver entre o respeito do imponderável, os imprevistos, o não controle da natureza e a desordem com a rotina, o planejamento e a ordem da vida cotidiana. Acho que há um ganho nessa possibilidade de convivência. É isso que tento entender um pouco mais no âmbito das classes da educação infantil.

 

Juá, 01 de março de 2009.

2009/2/7

Fórum Social Mundial

Uma existência, uma jornada, ou mesmo uma aventura doutoral como a que estou vivendo, é marcada por um tempo, por um espaço, pelos acontecimentos e pela época que se vive. Os alemães têm uma palavra que designa isso. Eles chamam de zeitgeist (o espírito da época que marca a vidas daqueles que a vivem).

Venho de participar do 9º Fórum Social Mundial (em Belém) e, sem dúvida, muitas coisas que lá foram discutidas e vividas nos atravessam e nos exigem respostas enquanto seres de um tempo e de um espaço. Mantendo a tradição dos primeiros fóruns este também trouxe à tona a questão ambiental. Tal questão está entrelaçada com tantas outras que perpassa a economia, o modus vivendis... Muitos organismos de estudos e pesquisas vêm apontando que a terra não suportará por muito tempo o ritmo de consumo imposto pelo modelo econômico neo-liberal. O que acontecerá depois se continuarmos nos devorando com a lógica de produzir para consumir e de consumir para produzir sabemos exatamente, mas com certeza pagaremos um grande preço. Há, inclusive, uma frase que carrega grande sabedoria que diz “Deus sempre perdoa, o homem as vezes e a natureza nunca”.  

Outro ponto que teve grande tensão foi a discussão em torno da crise econômica, onde duas posições se distinguiam: a) uma reformista, que propõe um capitalismo mais humanizado, mais solidário. B) outra que busca a ruptura com o modelo capitalista, propondo um desenvolvimento alternativo. A grande questão é que tanto a reforma quanto a ruptura requer posições e atitudes mais radicais (sobretudo para a posição radical) e nem sempre há coragem e disposição para isso. Isto me faz lembrar a fala do frei Cappio, que jejuou durante 29 dias em resposta contrária ao projeto de transposição do Rio São Francisco. Ele dizia: “quando se extingue a razão, a loucura é o caminho”. Particularmente, tento me posicionar na perspectiva de não reformar o sistema, mas de mudar. A grande questão é justamente agir, romper com práticas e comportamentos que são fortemente condicionados pelo contexto capitalista que nos forja. Talvez por isso o freio Cappio tenha apontado para uma ruptura radical, mesmo aquela que seja entendida como louca.

Nesse embate entre o querer mudar e o mudar efetivamente, entre as discussões e informações sobre os problemas e as ações, existe um abismo. Parece que nos falta um passo no sentido de colocarmos em prática muito do que já sabemos. Isto nos deixa angustiado. E foi esse o sentimento que mais predominou na minha passagem pelo FSM. Ao contrário do que alguns possam pensar de que a angústia deva ser evitada, sou partidário do aspecto positivo desse sentimento. O Leonardo Boff em sua sabedoria nos convidou a enfrentarmos as nossas angústias e mesmo provocá-la, isto porque ela é que nos faz mover, conversar, buscar, procurar... Ela nos incomoda e mexe com a gente.

O cotidiano nos territórios do FSM (o Campus da Universidade Federal Rural do Amazonas - UFRA e o Campus da Universidade Federal do Pará - UFPA) foram palco de uma multiplicidade de situações, de perspectivas, de grupos sociais, de práticas e interesses. Havia por exemplo, no Campus da UFRA, o acampamento da juventude, onde cerca de 20.000 pessoas conviviam diuturnamente. Muitas delas puderam expressar seus anseios, idéias e comportamentos. Não foi por menos, por exemplo, que a mídia aproveitou essa situação e nomeou o FSM de Belém 2009 de “Woodstock de Esquerda”, “de turismo social” ou até mesmo de “piquenique da antiglobalização” (esta última foi alcunhada pelo jornal LIBERAL – de Belém). Em parte, não tiro o crédito da mídia, mesmo sendo aproveitadora e intencional no sentido de desmoralizar os movimentos sociais e o próprio FSM enquanto espaço e instrumento de transformação social. Penso desse jeito porque de fato houve pessoas que viviam o FSM como espaço simplesmente de passeio, de curtição... Observei, por exemplo, que muitos não participavam das discussões, dos debates. Outros até chacoteavam dos debates, dizendo: “agora vamos debater o sabor da pizza, vamos debater a cerveja...”. Eu penso que a participação de pessoas curiosas a respeito do FSM, que a celebração, que a festa e que buscar espaços como o FSM para expressões das mais diversas é justa e importante para o próprio FSM. Penso assim justamente para evitarmos aquela posição moralista e severa, que marcou alguns movimentos de esquerda. Entretanto, o FSM não pode ter essas coisas como destaque em detrimento da participação das discussões e dos encaminhamentos. Há que se manter um equilíbrio para se evitar o descambamento do FSM e sua descaracterização. Avalio que a organização desse encontro foi de certa forma, responsável pelo não aproveitamento e atração das pessoas que estavam muito mais para curtir. Primeiro, os espaços reservados para as comunidades e para as discussões sociais ficaram divididas das outras modalidades. A dificuldade de locomoção entre um Campus e outro e a falta de informação das atividades impediu uma maior interação entre os participantes.      

Participar do FSM foi um aprendizado rico em experiências diversas. Acho que saiu de lá mais responsável e com um senso de ética (também para minha formação enquanto docente e pesquisador) mais apurado. E mesmo não tendo uma relação direta com o objeto do meu estudo doutoral, também volto com uma perspectiva mais entranhada nas preocupações, necessidades e urgências do mundo atual. Aliás, os existencialistas já traziam o verdadeiro sentido de responsabilidade: habilidade em dar respostas.

 

 

 

Belém, 02 de fevereiro de 2009.

2009/1/11

Uma pergunta contra o esquecimento: Para que serve mesmo um mestrado e um doutorado?

Apesar de ser relativamente óbvia a pergunta “para que serve um mestrado e um doutorado”, não é algo por tudo esclarecido. Normalmente, se pensa que o mestrado é para formar mestres (professores) e o doutorado para formar pesquisadores. Também se diz que os cursos de stricto senso servem para preparar pesquisadores numa escala de complexidade que vai do mestrado ao doutorado. Bem, pelo menos essas têm sido as compreensões mais disseminadas nos meios acadêmicos.

Mas seriam mesmos esses os sentidos primordiais do mestrado e do doutorado? Antes de tudo é importante lembrar que estamos falando de formações profissionais, ou melhor, de  tipos de formação continuada que têm importância vital para carreira docente.

É verdade que pesquisadores de carreiras, que trabalham em centros de pesquisas, buscam esse tipo de formação. É verdade também que existem os atuais mestrados chamados “profissionais”, que visam qualificar o técnico que está no mercado de trabalho. Entretanto, a grande maioria que busca a formação continuada stricto senso tem como meta a qualificação na carreira docente ou o seu ingresso. 

Sendo a carreira docente o grande locus para esse tipo de formação profissional cabe uma próxima pergunta, que pode ser, amiúde, vista como deveras evidente: qual o sentido de um mestrado ou um doutorado para carreira docente se esta for impregnada para uma formação de pesquisadores?

É claro que há a tão propalada idéia da indissociabilidade entre ensino e pesquisa. O docente precisa da dimensão da pesquisa, faz parte da sua atuação produzir conhecimento, dominar as linguagens da metodologia científica e, não obstante, demanda-se da universidade a produção do conhecimento para possíveis contribuições à sociedade.  Não há o que se questionar em relação a isso, mas é mister lembrar as críticas de Wladimir Kourganoff (1990) de que a relação entre ensino e pesquisa não é tão evidente e que há no mundo universitário uma primazia da pesquisa em detrimento do ensino. Isso tem contribuído para uma série de problemas que, em última instância, repercute na qualidade da formação dos estudantes.

Um mestrado e um doutorado fazem, ou pelo menos deveriam fazer, sentido para carreira docente se tais formações estiverem em consonância com a melhoria da qualidade do ensino. Isto não significa negar a formação do docente pesquisador ou de preparar o professor para ser um pesquisador. Ao contrário! A pesquisa e sua prática são fundamentais enquanto produtoras de conhecimento e criação de um modo de se relacionar com o conhecimento, que é fundamental para a prática docente. E é isto que precisa estar em mente, que essa formação é para melhorar, no final das contas, a docência como um todo significando, principalmente, uma melhora na qualidade do ensino.

Infelizmente, o que tenho constatado é que esse tipo de preocupação, com a qualidade do ensino, está longe das intenções e do afã daqueles que sofrem e se deliciam nos programas de mestrados e doutorados. A áurea inebriante que adentra nos iniciados (e alimentado em sua grande parte pelos próprios “velhos docentes” de tais programas) tem sido, de um modo geral, a de ser unicamente um pesquisador. Esse status de pesquisador, infelizmente, é vivido muitas vezes como algo descolado da dimensão do ensino.

Portanto, para todos aqueles que estão na academia ou querem ingressar, um mestrado e um doutorado, na compreensão que venho tendo e mesmo "nadando contra a maré", servem TAMBÉM para melhorar a qualidade de ser docente e isto significa, sobretudo, melhorar o ensino, ser um professor melhor.

 

Jauá, 27 de dezembro de 2008.

 

Ref. Bibliográfica

KOURGANOFF, Wladimir. A face oculta da universidade. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista.

MASETTO, Marcos Tarciso. Competências pedagógicas do professor universitário. São Paulo: Summus, 2003.

2008/12/31

Comentário de Dani

Marcelo! Li o que você escreveu no blog recentemente...
Embora não esteja no fim do meu doutorado concordo com você,
quando falas da obsessividade e da angústia que é produzir algo novo.
Há momentos que parece que tocamos nosso alvo/tese com a mão, de tão empolgante
que ele se faz pra nós, se concretiza através de nosso desejo de conhece-lo... Mas
há terríveis momentos em que ele se perde, sendo-nos tão estranho, a ponto de nos
questionarmos como fomos nos meter com tal tema... Pior, as vezes é ver em nosso
objeto de estudo aspectos que não se enquadram na academia, que não são publicados
no Lattes, mas que estão lá... O objeto estudado as vezes parece brincar conosco
oferendo-nos aspectos seus poéticos, sublimes, porém não publicáveis ou interessantes
para a academia... em contrapartida esconde de nós tudo que de mais acadêmico precisamos
abstrair dele... Eis o desesperador desafio do doutorado... ao menos pra mim.
DEUS te conduza meu amigo, na reta final da apreensão dos teus objetos de estudo.
Abraço
Dani

2008/12/8

Final de ano e obsessividades...

Vem chegando o final de ano e aquelas angústias costumeiras de percebermos as promessas que não foram cumpridas se avolumam. Então novas promessas começam a brotar e novamente angústias me acompanham. Só que a diferença é a idéia de que talvez não consigamos mais uma vez cumprir o prometido. É aí que se localiza o projeto de terminar esse doutorado ano que vem, de tirar minhas férias para dedicação exclusiva para tese, de trabalhar duro e fazer tudo que for necessário para finalizar essa aventura. Talvez agora eu esteja vivendo um dos momentos mais difíceis, que é a reta final. Para dizer a verdade, não agüento mais ler, reler e me debruçar sobre o meu tema. Parece mesmo que esse tipo de saturação é algo bem comum, pelo menos tenho sido testemunha dessa mesma situação entre alguns conhecidos. Isso me faz pensar que para uma jornada doutoral é preciso uma dose de comportamento obsessivo-compulsivo. Sim, verdade! O pesquisador precisa ser um pouco obsessivo e compulsivo caso contrário ele corre o risco de se perder diante das coisas diversas que lhe chamam atenção. O pesquisador em um determinando momento, sobretudo no meio para o final da pesquisa, precisa insistir, precisa buscar mais, precisa persistir e aprofundar sua investigação sobre o objeto de conhecimento. E aí é necessário esse comportamento que acabei de comentar. Eu, por exemplo, faço um esforço para tentar me manter nessa reta. Pelo visto não estou muito enquadrado no modelo de pesquisador que requeira esse tipo de neurose, mas certamente devo me adaptar perfeitamente em outros.

 

Jua, 08 de dezembro de 2008

2008/11/15

A história das coisas

  
 
"Documentário que questiona de onde vêm e para onde vão as coisas que consumimos, e até quando vai existir matéria-prima. Curto e com uma linguagem simples, esse filme de 2005, produzido pela Free Range Studios, e escrito e interpretado por Annie Leonard, mostra os problemas sociais e ambientais criados como consequência do nosso hábito consumista, apresenta os problemas gerados por esse sistema e mostra como podemos revertê-lo, porque, afinal, não foi sempre assim. Além de didático e provocativo, achei o documentário, simplesmente, genial. A tradução e dublagem foi feita pelos membros da comunidade Permacultura do orkut".
 
Considero uma grande aula sobre os nossos descaminhos. E como não dá para falar e pensar em ciência sem haver uma reflexão sobre a humanidae, a terra, o que fazemos... Como diria Boaventura de Sousa Santos:  "precisamos construir uma ciência prudente para uma sociedade decente".

 
 

MINHA NOVA MISSÃO (PROEN) E OS PROBLEMAS COM O DOUTORADO – A RETA FINAL É MAIS DIFÍCIL

A especificidade do modo como estou levando o meu doutorado contribui para que eu tenha um percurso diferenciado. Assim como outros colegas que fazem ou fizeram seus programas compatibilizando uma parte ou todo o tempo e o percurso com outras atividades, um doutorado desse jeito tem suas próprias características. Eu não diria que é melhor e nem pior, apenas diferente.

A grande questão é saber conciliar o doutorado com as atividades profissionais. Acontece que existem coisas que vão se passando na vida da pessoa que não dá para prever ou não dá para refutar. Foi o que aconteceu comigo, recentemente, ao ser convidado para assumir a pró-reitoria de ensino. Assumi o desafio de liderar essa pró-reitoria, mesmo sabendo dos grandes desafios, dificuldades e absorção do tempo que haveria de encontrar. Certamente a experiência de estar pró-reitor, principalmente de ensino, daria (e dá) para fazer outro diário de bordo como este. É uma grande aventura e não há um dia que não seja pleno de situações desafiadoras, emocionantes e por que não dizer, difíceis, sobretudo no atual contexto da minha universidade.

Conciliar um doutorado com o trabalho requer algumas coisas imprescindíveis. A primeira delas é não perder o foco e não se deixar distrair por completo com as atividades profissionais. Eu sei que isto por vezes é inevitável e eu mesmo vivo momentos assim, mas a questão é saber reconduzir o barco e colocar de volta no prumo certo. Não perder jamais o horizonte correto.

A segunda coisa é tentar criar uma disciplina mínima. Tentar reservar uma parte do tempo é fundamental. Não precisa ser necessariamente uma reserva diária, mas uma programação que pode ser semanal, quinzenal talvez.

A terceira diz respeito a tentar enxergar o tema do doutorado em todos os espaços que você freqüenta e vivencia. Por exemplo: eu trabalho com a questão da rotina e dos imprevistos, então tento ver essas coisas no cotidiano do meu trabalho. Isto ajuda a manter o foco no doutorado e estar ligado mesmo quando minha ação não está voltada a ele diretamente.

Por fim, acho que não desistir é a última coisa. Às vezes fica muito difícil continuar o projeto doutoral, sobretudo quando a gente está na metade para o final do projeto. Tudo parece ficar muito cansativo, a gente fica desmotivado, parece que a gente já abusou de tudo. Isto pode ser um grande perigo e aí cabe procurar o orientador, se for o caso, ou então os amigos que já viveram esse processo.

2008/11/3

HISTÓRIA DE UM DOUTORADO: O TEMPO VIVIDO

Quase quatro anos já passaram... É certo que terminarei além do prazo normal (quatro anos). Isto tem me angustiado. Talvez em função da minha cobrança em terminar no tempo, mas o que é o temo mesmo? Bem, a cobrança acontece quando passo a me comparar com o tempo de outros colegas que acabaram o doutorado em três anos, por exemplo. Sei que isso é outra coisa e que não devo cair nessa de cobranças. A verdade é que muito tempo já passou e várias coisas aconteceram de lá para cá. Durante esse percurso tenho tristes lembranças da perda de alguns amigos (Severino, Georges, Tarciano e Socorro) e alegres recordações de outras pessoas queridas que eu conheci. Coisas maravilhosas também aconteceram, como o nascimento da minha filha Isabela.

O tempo de um doutorado é também o tempo de uma vida. Um caminho que a gente marca em nossa história, um momento de partida e um momento de chegada. A gente vai passando por esse caminho e ele nos passa, sempre deixando marcas assim como também as deixamos. Agora estou com menos cabelos, com um pouco mais de fios brancos... É o envelhecimento físico mostrando seus primeiros sinais... Um doutorado para mim é isso também... É uma história de vida que só pode ser compreendido e significado na história toda de quem o vive. É nesse sentido que para mim a pesquisa, o produzir conhecimento ganha sentido à medida que nos permitimos imbricar com nossas outras dimensões (pessoal, coletiva, etc.). Para valer mesmo, um doutorado tem que se arranhar com a existência. Não é somente um projeto em si, não são apenas as aulas, os experimentos, os instrumentos aplicados ou os textos lidos. É tudo que se vive nas beiradas, no interior, nas vísceras e nos mundos invisíveis do processo. É a separação, o amor reencontrado, a morte do amigo, o nascimento de um filho, a dureza de ficar sem grana, o emprego novo, o desentendimento com o colega e tudo mais que pode se passar. Esta é a história de um doutorado que para valer, para dar sentido, tem que ser vivido e registrado como a vida mesmo de quem o fez. É verdade que o doutorado não é tudo na vida e isto já falei aqui. É mais um começo quando a vida é feita de tantos outros recomeços e por isso mesmo não desprezado e nem super valorizado. A história de um doutorado é a história de uma vida como qualquer outra história ou como qualquer outra vida.

 

Espaço aéreo brasileiro, 31 de outubro de 2008.

2008/10/24

UM DOUTORANDO DESLIGADO DO MUNDO

Já tem um bom tempo que não paro para assistir jornal. Para dizer a verdade, ando desligado das notícias jornalísticas. Acho até que existe certo prejuízo da minha parte por não estar acompanhando e me inteirando das coisas que são veiculadas pela grande mídia. Entretanto, sinto também que estou, digamos, meio “purificado” do jogo do vai-e-vem que a mídia televisa faz com as informações e com as emoções dos telespectadores, que são quase sempre manipuladas.

Estamos vivendo uma crise financeira em escala mundial. Este tem sido o grande tema dos jornais, da mídia em geral. Uma crise que se iniciou no E.U.A. e que foi na verdade anunciada alguns meses atrás. Uma crise que se desencadeou a partir do mercado imobiliário por causa das especulações, das aplicações e das jogadas financeiras. Isto significa dizer que a crise é oriunda não de uma causa concreta por causa, por exemplo, de um desastre natural que afetou algum nível da escala produtiva. A crise é virtual! A crise foi inventada! Esta é a realidade. Além disso, a crise tem sido muito lucrativa para alguns grupos. Bem, o que quero comentar não é necessariamente sobre a análise ou minha opinião analítica dessa crise. O que quero comentar é que me faz bem estar longe da mídia que parece jogar com a tensão da crise. Eu, particularmente, acho que a crise seria muito menos crise se não fosse a amplificação que a mídia tem feito. Eis um dos grupos que parece lucrar com essa tal de crise! 

2008/9/15

AMOR E DESTRUIÇÃO

 

Estive um bom tempo distante dos registros deste diário de bordo. Entretanto, isto não significa não estivesse pensando sobre minha caminhada como pessoa e profissional. É que algumas vezes encontro-me totalmente imerso em reflexões, situações de trabalho e coisas do dia a dia que não tenho tempo e nem muito ânimo para materializar algumas coisas em palavras.

Estou escrevendo tudo isso (quase uma introdução) para pontuar algo que vem me ocorrendo há tempo. Trata-se da questão ecológica, da poluição, da superpopulação e do modo de vida que levamos.

Tenho me interessado muito pelo pensamento do biólogo Huberto Maturana. Em um dos seus livros, que li recentemente – Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano - ele aborda o amor como fundador da humanidade. O que mais impressionou nessa obra foi a tese de que:

Do ponto de vista biológico, o amor é a disposição corporal sob a qual uma pessoa realiza as ações que constituem o outro como um legítimo outro em coexistência (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.235).

Nessa compreensão há a idéia de que o que nos define, na base, enquanto seres humanos não é a capacidade de pensar (em um nível de complexidade elevada), mas a de que somos seres emocionais e que graças a isso foi possível a relação, as trocas/interações e as aprendizagens. E a emoção que está na origem da nossa constituição filogenética e ontogenética é o amor. “O amor é a emoção que fundamenta o social”( Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.235).

Ao mesmo tempo em que Maturana sustenta essa tese dirá que isto não é suficiente para termos uma vida mais harmoniosa e menos destrutiva.

Nos sistemas vivos, nada ocorre que sua biologia não permita. A biologia não determina o que acontece no viver, mas especifica o que pode acontecer” (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.234).

O problema, portanto, estaria nas interferências da relação amorosa devida ao padrão de vida que construímos. Este padrão se configuraria pela valorização da apropriação, pelo controle e pelo crescimento e procriação (ele vai identificar isso na origem da nossa cultura patriarcal).

Para mim chega a ser terrível pensar no modo absurdo e homicida que vivemos ao estabelecermos como padrão o crescimento da população para gerar mercado consumidor, para produzir mercadorias, para gerar lucro, para gerar massa humana, para consumir energia, para gerar para gerar para gerar... Eu fico imaginando a quantidade de gente que existe no mundo por causa de um propósito: consumir, controlar, produzir...

A quantidade de coisas que destruímos, que interferimos, que queimamos, que perdemos... E por mais reduções de danos ou desenvolvimentos auto-sustentáveis que geremos sempre há um custo, um preço e uma perda significativa em termos de destruição dos recursos naturais e ameaça à vida. A terra não sustentará por muito mais tempo esse modo de vida que vivemos. Estamos caminhando para a nossa própria destruição de um modo acelerado!

Maturana, por fim, nos alerta:

Para deter a destruição da natureza pelo homem – e com isso interromper a destruição humana da existência humana – é preciso sustar o crescimento da população. Este é o principal fator operacional da geração dos danos ecológicos, da contaminação ambiental e da miséria e sofrimentos humanos que eles produzem (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.259).

 

Ref.

MATURANA, Humberto e VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar. Fundamentos esquecidos do humano. São Paulo. Palas Athena, 2004.

2008/8/12

CANCELAMENTO DO VÔO

Eu sei que está meio defasado falar do meu último retorno do Canadá, mas como a falta de tempo só me permitiu narrar o acontecimento agora...

Bem, eu queria voltar para o Brasil alguns dias depois da minha apresentação, mas isso não foi possível porque havia comprado a passagem na promoção. Resultado: tive que esperar até o dia 07.

Saí de Montreal para Toronto no horário previsto (20h), mas quando estava para fazer o novo embarque para o Brasil, a AIR Canadá avisou que o vôo tinha sido cancelado! E agora?! Havia um grande número de brasileiros meio que confusos no enorme aeroporto de Toronto. Lembro-me de duas senhoras que não sabiam falar uma palavra em inglês (o meu inglês é praticamente inexistente, mas falava em francês. O problema era encontrar um canadense de Toronto que falasse francês!). Na verdade, só alguns poucos sabiam falar alguma coisa. O grupo quase como um todo estava perdido. Depois de algumas dificuldades ficamos sabendo com a companhia área que iria nos hospedar no Sheraton (um hotel muito bacana que fica próximo ao aeroporto). O problema é que o grupo era grande e as dúvidas quanto ao local, como chegar ao hotel, como voltar, aonde comer... eram também abundantes. Durante toda a confusão de levar malas para um lado e para o outro me dei conta da solidariedade que havia entre nós, brasileiros. Sem nos conhecermos anteriormente estabelecemos de imediato uma relação de ajuda, de amizade, de carinho e acolhimento uns em relação aos outros.  Isto foi um alento aos sentimentos que eu estava experimentando em relação ao meu país, ao meu povo. Estava com muita vergonha da nossa corrupção e das nossas violências quando algum estrangeiro confrontava essas situações.

Finalmente, 6 horas da manhã do dia 08 embarcamos e as 22h estava em solo brasileiro no aeroporto de Guarulhos. Ainda pude me despedir de alguns companheiros de viagem com uma gostosa sensação de ter experimentado uma parte bem legal do jeito de ser da gente.

2008/7/24

QUANDO SE TEM DOUTORADO



            O dissacarídeo de fórmula C12H22O11, obtido através da
fervura e da evaporação de H2O do líquido resultante da prensagem do
caule da gramínea Saccharus officinarum, (Linneu, 1758) isento de
qualquer outro tipo de processamento suplementar que elimine suas
impurezas, quando apresentado sob a forma geométrica de sólidos de
reduzidas dimensões e restasretilíneas, configurando pirâmides
truncadas de base oblonga e pequena altura, uma vez submetido a um
toque no órgão do paladar de quem se disponha a um teste
organoléptico, impressiona favoravelmente as papilas gustativas,
sugerindo impressão sensorial equivalente provocada pelo mesmo
dissacarídeo em estado bruto, que ocorre no líquido nutritivo da alta
viscosidade, produzindo nos órgãos especiais existentes na Apis
mellifera.(Linneu, 1758) No entanto, é possível comprovar
experimentalmente que esse dissacarídeo, no estado físico-químico
descrito e apresentado sob aquela forma geométrica, apresenta
considerável resistência a modificar apreciavelmente suas dimensões
quando submetido a tensões mecânicas de compressão ao longo do seu
eixo em conseqüência da pequena capacidade de deformação que lhe é peculiar.


            QUANDO SE TEM MESTRADO

            A sacarose extraída da cana de açúcar, que ainda não
tenha passado pelo processo de purificação e refino, apresentando-se
sob a forma de pequenos sólidos tronco-piramidais de base retangular,
impressiona agradavelmente o paladar, lembrando a sensação provocada
pela mesma sacarose produzida pelas abelhas em um peculiar líquido
espesso e nutritivo. Entretanto, não altera suas dimensões lineares ou
suas proporções quando submetida a uma tensão axial em conseqüência da
aplicação de compressões equivalentes e opostas.


            QUANDO SE TEM GRADUAÇÃO

            O açúcar, quando ainda não submetido à refinação e,
apresentando-se em blocos sólidos de pequenas dimensões e forma
tronco-piramidal, tem sabor deleitável da secreção alimentar das
abelhas; todavia não muda suas proporções quando sujeito à compressão.


            QUANDO SE TEM ENSINO MÉDIO

            Açúcar não refinado, sob a forma de pequenos blocos,
tem o sabor agradável do mel, porém não muda de forma quando
pressionado.


            QUANDO SE TEM ENSINO FUNDAMENTAL

            Açúcar mascavo em tijolinhos tem o sabor adocicado, mas
não é macio ou flexível.


            QUANDO NÃO SE TEM ESTUDO

            Rapadura é doce, mas não é mole, não!

 

(Retirado da tia NET - Autor ainda desconhecido)

2008/7/20

O HOMEM DO TEMPO

Último dia em Montréal. Corina e eu saímos para resolver algumas coisas. Como meu relógio havia parado de funcionar, resolvemos levá-lo para consertar. Corina também aproveitou para trocar as pilhas dos seus. Depois de procurarmos alguns minutos, finalmente encontramos a relojoaria. O homem que lá estava acionou o botão que nos permitiu entrar. Em seu espaço de trabalho tudo parecia mágico, como em um daqueles filmes de Harry Potter. Móveis antigos, medalhões, um pequeno quadro onde havia um velho mostrando um relógio de parede para uma criança, imagens e objetos que representavam cenas de caça e pesca... Jacques era bem alto e forte, um quarentão de nariz fino e mãos grossas. Minucioso e delicado ao tratar dos relógios. 34 anos de profissão, disse ele com orgulho. Sempre com respostas rápidas e sábias para cada diálogo que travávamos. Ele soube que eu era brasileiro e disse que sentia muito pela destruição da floresta amazônica. Começamos a falar sobre a natureza e sua destruição pelo ser humano. Jacques não se mostrou otimista. Achava que o mundo (humano) iria acabar e que a natureza (esta tal qual a conhecemos) já estava em vias de extinção. Sua atitude, um tanto que cínica (não no sentido pejorativo e corriqueiro) em relação a isso era de tentar aproveitar o máximo que podia da vida. Por exemplo, trabalhava 25 dias e folgava 5 (sem contar os finais de semana). Nossa reação foi contrária a de Jacques. Dissemos a ele que seria possível mudar e que haveria esperança do ser humano mudar antes que fosse tarde demais, mas Jacques parecia muito confiante e nós, talvez, ingênuos ainda. Não sei quem está ou estará certo, mas sei que aquele era um sujeito interessante e seu lugar e sua vida, na relação com o tempo, o fazia especial.

 

Montréal, 07 de julho de 2008.

 

relógio