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    2/7/2009

    Fórum Social Mundial

    Uma existência, uma jornada, ou mesmo uma aventura doutoral como a que estou vivendo, é marcada por um tempo, por um espaço, pelos acontecimentos e pela época que se vive. Os alemães têm uma palavra que designa isso. Eles chamam de zeitgeist (o espírito da época que marca a vidas daqueles que a vivem).

    Venho de participar do 9º Fórum Social Mundial (em Belém) e, sem dúvida, muitas coisas que lá foram discutidas e vividas nos atravessam e nos exigem respostas enquanto seres de um tempo e de um espaço. Mantendo a tradição dos primeiros fóruns este também trouxe à tona a questão ambiental. Tal questão está entrelaçada com tantas outras que perpassa a economia, o modus vivendis... Muitos organismos de estudos e pesquisas vêm apontando que a terra não suportará por muito tempo o ritmo de consumo imposto pelo modelo econômico neo-liberal. O que acontecerá depois se continuarmos nos devorando com a lógica de produzir para consumir e de consumir para produzir sabemos exatamente, mas com certeza pagaremos um grande preço. Há, inclusive, uma frase que carrega grande sabedoria que diz “Deus sempre perdoa, o homem as vezes e a natureza nunca”.  

    Outro ponto que teve grande tensão foi a discussão em torno da crise econômica, onde duas posições se distinguiam: a) uma reformista, que propõe um capitalismo mais humanizado, mais solidário. B) outra que busca a ruptura com o modelo capitalista, propondo um desenvolvimento alternativo. A grande questão é que tanto a reforma quanto a ruptura requer posições e atitudes mais radicais (sobretudo para a posição radical) e nem sempre há coragem e disposição para isso. Isto me faz lembrar a fala do frei Cappio, que jejuou durante 29 dias em resposta contrária ao projeto de transposição do Rio São Francisco. Ele dizia: “quando se extingue a razão, a loucura é o caminho”. Particularmente, tento me posicionar na perspectiva de não reformar o sistema, mas de mudar. A grande questão é justamente agir, romper com práticas e comportamentos que são fortemente condicionados pelo contexto capitalista que nos forja. Talvez por isso o freio Cappio tenha apontado para uma ruptura radical, mesmo aquela que seja entendida como louca.

    Nesse embate entre o querer mudar e o mudar efetivamente, entre as discussões e informações sobre os problemas e as ações, existe um abismo. Parece que nos falta um passo no sentido de colocarmos em prática muito do que já sabemos. Isto nos deixa angustiado. E foi esse o sentimento que mais predominou na minha passagem pelo FSM. Ao contrário do que alguns possam pensar de que a angústia deva ser evitada, sou partidário do aspecto positivo desse sentimento. O Leonardo Boff em sua sabedoria nos convidou a enfrentarmos as nossas angústias e mesmo provocá-la, isto porque ela é que nos faz mover, conversar, buscar, procurar... Ela nos incomoda e mexe com a gente.

    O cotidiano nos territórios do FSM (o Campus da Universidade Federal Rural do Amazonas - UFRA e o Campus da Universidade Federal do Pará - UFPA) foram palco de uma multiplicidade de situações, de perspectivas, de grupos sociais, de práticas e interesses. Havia por exemplo, no Campus da UFRA, o acampamento da juventude, onde cerca de 20.000 pessoas conviviam diuturnamente. Muitas delas puderam expressar seus anseios, idéias e comportamentos. Não foi por menos, por exemplo, que a mídia aproveitou essa situação e nomeou o FSM de Belém 2009 de “Woodstock de Esquerda”, “de turismo social” ou até mesmo de “piquenique da antiglobalização” (esta última foi alcunhada pelo jornal LIBERAL – de Belém). Em parte, não tiro o crédito da mídia, mesmo sendo aproveitadora e intencional no sentido de desmoralizar os movimentos sociais e o próprio FSM enquanto espaço e instrumento de transformação social. Penso desse jeito porque de fato houve pessoas que viviam o FSM como espaço simplesmente de passeio, de curtição... Observei, por exemplo, que muitos não participavam das discussões, dos debates. Outros até chacoteavam dos debates, dizendo: “agora vamos debater o sabor da pizza, vamos debater a cerveja...”. Eu penso que a participação de pessoas curiosas a respeito do FSM, que a celebração, que a festa e que buscar espaços como o FSM para expressões das mais diversas é justa e importante para o próprio FSM. Penso assim justamente para evitarmos aquela posição moralista e severa, que marcou alguns movimentos de esquerda. Entretanto, o FSM não pode ter essas coisas como destaque em detrimento da participação das discussões e dos encaminhamentos. Há que se manter um equilíbrio para se evitar o descambamento do FSM e sua descaracterização. Avalio que a organização desse encontro foi de certa forma, responsável pelo não aproveitamento e atração das pessoas que estavam muito mais para curtir. Primeiro, os espaços reservados para as comunidades e para as discussões sociais ficaram divididas das outras modalidades. A dificuldade de locomoção entre um Campus e outro e a falta de informação das atividades impediu uma maior interação entre os participantes.      

    Participar do FSM foi um aprendizado rico em experiências diversas. Acho que saiu de lá mais responsável e com um senso de ética (também para minha formação enquanto docente e pesquisador) mais apurado. E mesmo não tendo uma relação direta com o objeto do meu estudo doutoral, também volto com uma perspectiva mais entranhada nas preocupações, necessidades e urgências do mundo atual. Aliás, os existencialistas já traziam o verdadeiro sentido de responsabilidade: habilidade em dar respostas.

     

     

     

    Belém, 02 de fevereiro de 2009.

    11/15/2008

    A história das coisas

      
     
    "Documentário que questiona de onde vêm e para onde vão as coisas que consumimos, e até quando vai existir matéria-prima. Curto e com uma linguagem simples, esse filme de 2005, produzido pela Free Range Studios, e escrito e interpretado por Annie Leonard, mostra os problemas sociais e ambientais criados como consequência do nosso hábito consumista, apresenta os problemas gerados por esse sistema e mostra como podemos revertê-lo, porque, afinal, não foi sempre assim. Além de didático e provocativo, achei o documentário, simplesmente, genial. A tradução e dublagem foi feita pelos membros da comunidade Permacultura do orkut".
     
    Considero uma grande aula sobre os nossos descaminhos. E como não dá para falar e pensar em ciência sem haver uma reflexão sobre a humanidae, a terra, o que fazemos... Como diria Boaventura de Sousa Santos:  "precisamos construir uma ciência prudente para uma sociedade decente".

     
     
    9/15/2008

    AMOR E DESTRUIÇÃO

     

    Estive um bom tempo distante dos registros deste diário de bordo. Entretanto, isto não significa não estivesse pensando sobre minha caminhada como pessoa e profissional. É que algumas vezes encontro-me totalmente imerso em reflexões, situações de trabalho e coisas do dia a dia que não tenho tempo e nem muito ânimo para materializar algumas coisas em palavras.

    Estou escrevendo tudo isso (quase uma introdução) para pontuar algo que vem me ocorrendo há tempo. Trata-se da questão ecológica, da poluição, da superpopulação e do modo de vida que levamos.

    Tenho me interessado muito pelo pensamento do biólogo Huberto Maturana. Em um dos seus livros, que li recentemente – Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano - ele aborda o amor como fundador da humanidade. O que mais impressionou nessa obra foi a tese de que:

    Do ponto de vista biológico, o amor é a disposição corporal sob a qual uma pessoa realiza as ações que constituem o outro como um legítimo outro em coexistência (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.235).

    Nessa compreensão há a idéia de que o que nos define, na base, enquanto seres humanos não é a capacidade de pensar (em um nível de complexidade elevada), mas a de que somos seres emocionais e que graças a isso foi possível a relação, as trocas/interações e as aprendizagens. E a emoção que está na origem da nossa constituição filogenética e ontogenética é o amor. “O amor é a emoção que fundamenta o social”( Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.235).

    Ao mesmo tempo em que Maturana sustenta essa tese dirá que isto não é suficiente para termos uma vida mais harmoniosa e menos destrutiva.

    Nos sistemas vivos, nada ocorre que sua biologia não permita. A biologia não determina o que acontece no viver, mas especifica o que pode acontecer” (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.234).

    O problema, portanto, estaria nas interferências da relação amorosa devida ao padrão de vida que construímos. Este padrão se configuraria pela valorização da apropriação, pelo controle e pelo crescimento e procriação (ele vai identificar isso na origem da nossa cultura patriarcal).

    Para mim chega a ser terrível pensar no modo absurdo e homicida que vivemos ao estabelecermos como padrão o crescimento da população para gerar mercado consumidor, para produzir mercadorias, para gerar lucro, para gerar massa humana, para consumir energia, para gerar para gerar para gerar... Eu fico imaginando a quantidade de gente que existe no mundo por causa de um propósito: consumir, controlar, produzir...

    A quantidade de coisas que destruímos, que interferimos, que queimamos, que perdemos... E por mais reduções de danos ou desenvolvimentos auto-sustentáveis que geremos sempre há um custo, um preço e uma perda significativa em termos de destruição dos recursos naturais e ameaça à vida. A terra não sustentará por muito mais tempo esse modo de vida que vivemos. Estamos caminhando para a nossa própria destruição de um modo acelerado!

    Maturana, por fim, nos alerta:

    Para deter a destruição da natureza pelo homem – e com isso interromper a destruição humana da existência humana – é preciso sustar o crescimento da população. Este é o principal fator operacional da geração dos danos ecológicos, da contaminação ambiental e da miséria e sofrimentos humanos que eles produzem (Maturana e Verden-Zoller, 2004, p.259).

     

    Ref.

    MATURANA, Humberto e VERDEN-ZOLLER, Gerda. Amar e brincar. Fundamentos esquecidos do humano. São Paulo. Palas Athena, 2004.

    7/20/2008

    INTERNET: UN BIEN PUBLIC

    Estava eu, na casa de Renaud e Corina, tentando me conectar na internet utilizando o sistema wireless. Vários sinais foram captados, mas todos estavam bloqueados com código de segurança. Provavelmente eram de vizinhos que compraram o direito a acessar internet. Cada um comprou o seu... Quem pode comprar tem acesso, quem não pode... Este assunto mexeu com a gente e tornou tema de uma boa conversação entre Corina, Renaud e eu. Tivemos como pensamento que a internet é, além de comunicação, acesso a informação e ao conhecimento. Além disso, é imprescindível para o desenvolvimento cognitivo no contexto contemporâneo*. Considerando tudo isso, a internet não poderia ser um bem privado, mas antes um bem público, um direito que deve ser compartilhado livremente por toda a humanidade!

     

    *Com isto é claro não quer dizer que cada ser humano devesse ter seu computador, mas que os mesmos fossem publicamente disponibilizados de maneira mais acessível e que o ACESSO a internet fosse gratuito ou subsidiado pelo estado.

    7/4/2008

    MUDANÇAS NO MUNDO

     Estava na casa da minha orientadora e antes de começarmos a trabalhar no projeto, eu tomava um cafezinho e conversa com o seu marido (Carlos, um homem extramente culto, além de comunista e ateu convicto é claro!) sobre as mudanças sociais no mundo. Em um determinado momento perguntei a ele: você acha, Carlos, que a escassez dos recursos naturais e o impacto sobre a natureza podem gerar condições para uma nova organização social ou o capitalismo mais uma vez criará uma nova forma de se adaptar as atuais circunstâncias? A resposta dele trouxe uma outra reflexão que foi a questão da relação entre a técnica e os meios de produção. Ele disse que até hoje há uma grande polêmica no que diz respeito a discussão sobre até que ponto a técnica inaugura e/ou é limitada pelos meios de produção. No fundo seu pensamento trazia de volta a minha questão sobre os impasses contemporâneos que vivemos (a poluição, a crise do petróleo, efeitos climáticos, consumismo, explosão demográfica mundial...) e a relação com o capitalismo. Resumo de nossa conversa: os limites possíveis que estão por vir não seriam em si uma garantia para ruptura do capitalismo e, conseqüentemente a inauguração de uma experiência humana em termos sociais, políticos e econômicos.  Tudo dependerá do que faremos ou deixaremos de fazer ao vivermos o ápice das conseqüências de um mundo que está se exaurindo.

     

    CONVERSAS COM MARTINE

    Durante os dias que passei em Chicoutimi fiquei na casa de Martine. Uma mulher sensível e inteligente. Uma grande amiga. Durante nossas freqüentes conversas, geralmente no café da manhã e janta, discutíamos sobre variados assuntos, mas principalmente sobre a existência humana. Eram conversas profundas e ao mesmo tempo leves e saborosas como os deliciosos pratos que fazia. Dentre as conversas lembro-me sobre a avaliação que fazia do ser humano na contemporaneidade e sua insensata relação de consumo diante do mundo. E como este tipo de estar no mundo o impelia a estar sempre buscando, sempre insatisfeito e deixando de viver a realização do momento presente. Dizia Martine que a relação de consumo além de produzir a poluição e contribuir com a destruição da vida na terra, leva o ser humano à condição de vazio existencial justamente porque o seus sentidos vão estar sempre voltados para o passado (o que teve) e-ou para o futuro (o que  quer ter), mas jamais no presente (o que é). Aquelas conversas me faziam pensar sobre o mundo, mas também sobre mim mesmo... 

    Obs. Fotos: Pescaria com Martine.

     

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    6/15/2008

    SOCIEDADE, RELIGIÃO, CIÊNCIA E RELIGIOSIDADE

    Onde está o lugar da religiosidade, ou melhor, da religião nos dias atuais? Sei que não é muito comum esse tipo de questionamento em comunidades científicas, mas considero importante, seja no plano da própria fé ou no plano antropológico.

    No que diz respeito à sociedade quebequense, esta foi durante muito tempo “guardada” sobre a sombra da igreja católica. Ela influenciava fortemente o governo, controlava a educação e estava muito presente na vida das pessoas. Muitos aqui dizem que era repressora, apesar de ter sido responsável pela preservação da língua e da cultura francesa após o domínio inglês no século XVIII.

    Depois da chamada revolução tranqüila (década de sessenta), a sociedade quebequense rompeu com a igreja católica e atualmente só 15% da população é praticante. Das muitas e muitas igrejas existentes na capital da província, por exemplo, a maioria está desativada, transformaram-se em museus, casas de espetáculos ou simplesmente foram vendidas. Em Montréal uma igreja virou condomínio de luxo - manteve só a fachada.

    Conversando com um amigo, ele explicou que depois do crescimento econômico as pessoas não se sentiam mais ameaçadas, mais inseguras... Elas viviam a plena realização de suas vidas não havendo mais necessidade de crerem numa realização em um além vida. Pode-se dizer, com certa relatividade, que a sociedade aqui é materialista. As pessoas vivem o cotidiano, não têm religião e não demonstram religiosidade (importante distinguir religião e religiosidade).

    Esse fenômeno social em relação à religião no Québec me faz pensar a respeito do sentido religioso. Seria mesmo uma questão de segurança material? Uma vez que a sociedade atinge determinado crescimento econômico, as pessoas perderiam a necessidade de acreditar em um além? Perderiam o interesse pelo espiritual? Mas seria o fator econômico suficiente para justificar isso? E a fé, também seria extinta da vida das pessoas? O estado e o capital substituiriam a religiosidade? Seria uma questão de culturas, onde sociedades criariam ou não a relação com a dimensão religiosa?

    Vejo aqui alguns problemas sociais que talvez tenham relação com a ruptura da religião e com a perda da religiosidade. Dentre eles destaco o suicídio (o Canadá é um dos países com alto índice) e os problemas nas relações entre pais e filhos. De modo geral, percebo também uma busca de sentido na vida das pessoas. É bem certo que essas coisas podem estar relacionadas a outras questões (a questão geral e complexa que envolve o mundo moderno e capitalista). Entretanto, essas observações e percepções, que são simples sentidos, me fazem interrogar se a religiosidade não seria algo mesmo da dimensão humana, intrínseco mesmo a sua condição. O transcendente, a fé, o além, o cosmos, o infinito, o desconhecido, o mistério e o sagrado não seriam condições necessárias à existência humana? A cultura, portanto, daria formas e contornos diferentes a essas experiências? E quando o humano negasse ou alienasse essas experiências, o que aconteceria com ele?

    Bem, mas falo tudo isso também para pensar a relação da religiosidade com a ciência... Em um simples projeto doutoral como se colocam os doutorandos nessa relação? Eu, por exemplo, tenho tentado viver o sagrado e os sentidos profundos dessa jornada, mas isso é capítulo para outra história.

    Abraço profundo e sentido.

    Québec, 14 de junho de 2008.

    6/11/2008

    Vida privada e produtividade

    Nossa estada na Ville de Québec tem sido bastante tranqüila. Saímos pelo dia, passeamos pela parte velha da cidade, fazemos algumas compras e aproveitamos o tempo para exercitar coisas que nos interessam. Eu, por exemplo, aproveito o tempo para organizar minha apresentação do exame doutoral, ler (atualmente estou lendo Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman) e meditar sobre algumas coisas... Acho que por causa da influência do livro tenho reparado muito sobre as relações das pessoas... Tenho realmente percebido como as pessoas daqui do Canadá interagem pouco (sob a minha perspectiva, é claro!). Aliás, esse tem sido um dos papos favoritos entre os meus parceiros desta viagem. Geralmente dizemos um para o outro: “se fosse no Brasil estávamos conversando com outras pessoas, encontrando mais gente...” É verdade que a barreira lingüística é algo bem concreto, mas é fácil constatar como as pessoas mantêm seus mundos privados em grandes reservas e que os espaços públicos são espaços de ações e não de interações... Mas como tudo tem suas compensações, a vantagem em não interagir constantemente é evitar os conflitos e os constrangimentos (que são essencialmente parte do processo)... Mas pensando bem, a arte da interação é exatamente viver a partir dos conflitos e dos constrangimentos. Um mundo asséptico dessas coisas preserva a individualidade (o privado), porém perde a intensidade de vida. Não estou dizendo que aqui é ruim ou que a cultura do Canadá e sua gente são frias. O que observo é que esta cultura (como tantas outras) está muito sujeitada a uma lógica do capital.  Por sua vez, tudo isso também me reporta a questão de um outro modo de vida atual, que é a questão da produtividade. Até mesmo na academia somos envolvidos por essa lógica, que ganha maior expressividade no que chamo de pesquisismo.Temos que produzir constantemente, quanto mais melhor, sem interessar muito na qualidade (por mais que hajam os qualis da vida). E a lógica da racionalidade instrumental que exige produção não é para necessariamente acumular, mas para gerar e descartar incansavelmente... Um mundo do descartável, do prático, do não perder tempo, do rápido, do consumível instantâneo... E tudo isso recai na exaltação do mundo privado, que em sociedades como a do Canadá tem seu modelo inspirador aos países do terceiro mundo (ou eufemicamente chamados em desenvolvimento). E nossa viagem continua...

     

    Québec, 11 de junho de 2008

     

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    5/1/2008

    O olhar da criança e a construção do conhecimento

    Vocês já repararam como é, comumente, o olhar de uma criança? É sempre aguçado, vivant, a procura de algo. O olhar da criança está aberto para mundo, vendo as coisas na sensação da primeira vez. Perscruta tudo na admiração (ad-mira-ação) gulosa e saboreante das coisas. A criança parece deixar-se surpreender com tudo e fico imaginando que ela se encanta na delícia de sempre descobrir algo, mesmo que já tenha tido contato com esse algo.

    Por diversas vezes percebo esse olhar em minha filha, que está por completar seis meses. Isabela está aberta para o mundo e seu olhar é uma expressão bastante significativa de curiosidade e atenção. Seus olhinhos pretos captam tudo que há interesse e eles apreendem do mundo o que é possível.

    Essa coisa do olhar da criança também me faz pensar a respeito do conhecimento, do investigar, da aprendizagem... Como seria bom se pudéssemos olhar sempre para as coisas como se fossem pela primeira vez, ou pelo menos mantendo o sabor da primeira vez. A curiosidade e a admiração estariam presentes e a experiência com o objeto seria surpreendente. O fenômeno da admiração poderia estar garantido e isto implica em tudo e infinitamente mirar de modo ativo às coisas (ad-mira-ação).

    O processo de conhecimento mesmo se desencadeia, no meu entender, a partir da curiosidade quando a gente se encanta com algo. A aprendizagem na verdade é a parte ativa disso, o que garante a investigação. Os pesquisadores, penso eu, não poderiam, jamais, deixar de ser crianças no sentido de guardar aquele olhar que tudo quer ver admiradamente na surpresa e no encanto de descobrir pela primeira vez o mundo. Assim, poderíamos sempre reinventar o mundo, recriar tudo e, mais importante, manter o encanto, o prazer e o entusiasmo da descoberta e do processo de construir conhecimentos.

    01 de maio de 2008.

     

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    12/29/2007

    Vivendo e aprendendo e aprendendo vivendo

    Entre dizer e viver sempre haverá uma boa distância. Esta é sempre uma conclusão atualizada por mim, seja na experiência do que há de profundo em minha pesquisa doutoral ou em outras coisas da vida. Um exemplo disso foi o que aconteceu comigo em uma disciplina de psicologia. Este ano tive uma aluna deficiente visual e, apesar de trabalhar com a educação especial e militar nela, não tive o cuidado de adaptar a prova (aumentando as fontes). Fui chamado atenção! Pois é... Vivendo e aprendendo e aprendendo vivendo.

     

    Juazeiro, 29 de dezembro de 2007

     
    Evento sobre inclusão social na UNIVASF - 2007Evento sobre inclusão social na UNIVASF
    Evento sobre Educação Inclusiva na UNIVASF - 2007
    8/31/2007

    Somos todos GENTE

    Muitas vezes há uma tendência de enxergar o outro como se fosse alguém além do humano, quer dizer, sem problemas, sem fraquezas, sem defeitos... Não é incomum que os professores sejam colocados nesse lugar. A psicanálise, inclusive, fala sobre isso ao abordar o fenômeno da transferência (positiva, no caso).

    Hoje fui abordado por uma aluna (de grande potencial - olá Natália!) que compartilhou sua admiração ao reconhecer nos meus depoimentos sobre as angústias, os medos, as fraquezas etc às suas próprias vivências. Ela pôde se identificar e sacar que meu processo, muitas vezes sofrido no doutorado, é semelhante ao dela como aluna de graduação. Sacou também que não existe muito essa história de “gente grande” que não vive certas coisas.

    Pois é... Somos todos gente. E acho que nos tornamos MAIS à medida que nos assumimos plenamente... sem querer esconder tanto... sem querer disfarçar tanto...

     

    Beijos. 

    7/23/2007

    Três situações e alguns pontos em comum

     

    Três situações marcaram a história do Brasil nessas últimas semanas e, de certo modo, parecem-me reservar pontos comuns: o acidente da TAM (Airbus A320), os jogos do PAN e a morte de ACM. Certamente, não são as letras que marcam os elos.

    Essas três situações merecem um olhar mais aguçado. Deveriam, é bem verdade, ser tratadas com mais detalhes, mas irei apenas apontar alguns indícios desse olhar.

    A primeira, que está sendo considerada o maior acidente aéreo brasileiro e que vitimou mais de 200 pessoais não pode ser aceita como uma falha, seja do piloto, seja por causa da falta de arranhuras na pista ou por causa de problemas mecânicos na turbina do avião. É preciso enxergar mais além! Os interesses econômicos e políticos andam acima do valor da vida quando se procura reduzir os gastos baixando a segurança dos vôos, quando não se fiscaliza adequadamente os sistemas aéreos, quando se procura “bodes-expiatórios” ou quando se busca esconder as verdadeiras causas e seus respectivos responsáveis sem uma autocrítica do conjunto.

    A segunda, marca uma contradição explícita. Seis bilhões foram gastos nos jogos do PAN-Rio 2007, superando e muito o orçamento inicialmente previsto. Uma pena que essa proporção orçamentária não existe para educação e saúde. Uma pena que a potência esportiva demonstrada pelo Brasil não represente a maioria dos heróis que sucumbe diariamente as tristes realidades a que são condenados a viver no mar de lama de injustiças e desigualdades. Posso indagar, inclusive, se houve um público que justificasse esses gastos. Quando assistia pela TV via sempre minguados públicos (exceto nas finais e em determinadas modalidades esportivas). Afinal, para quem interessou esse monumental investimento?

    A terceira situação foi a morte de ACM, mandatário da Bahia por dezenas de anos. Aqui no estado o que se comenta é a morte daquele que, em nome de um poder centralizador, soube negociar habilmente com os militares e com os progressistas (na re-abertura democrática) para se manter no poder e fazer valer uma política desenvolvimentista e concentradora de riquezas. Muitas “obras” fez ACM, mas a partir da manutenção de um poder atrasado, condenando a Bahia ao retardo político. A triste ironia é que ele está virando um herói ou até mesmo um santo. Santo ACM!

    Bem, o que aponto de comum nessas três lamentáveis situações é que vivemos uma nefasta inversão de valores onde o humano é banido em detrimento do econômico, onde o aparente publicitário é mais importante do que a vida concreta de milhares de pessoas e onde o modelo de político e cidadão é espelhado na história de um que era alcunhado de “Malvadeza”.

     

    Remanso, 23 de julho de 2007.

    1/15/2007

    DE NOVO ANO NOVO

    E tudo isso um dia acaba para depois começar...” Este é um dos trechos de uma das músicas do Camisa de Vênus[2], antiga banda baiana de rock[3]. Nunca esqueci esse trecho, talvez seja vestígio de um lado meu pessimista, algo próximo à idéia de eterno retorno de Schopenhauer, que diz que tudo retorna como se o tempo fosse cíclico, conduzindo, com esse filosofar, a uma idéia determinista e fatalista do mundo.

     

    Vejo-me agora em voltas com o Ano Novo (e em breve as voltas com o maravilhoso carnaval) repetindo essa parte da música e pensando um monte de coisas que parecem ter relação com o modo de me apropriar do sentido dela. Ao contrário de muitos que tomam o otimismo como norte do ano vindouro e os confundem com a esperança, assumo neste momento um certo pessimismo, não por afinidade ao mau agouro, mas pela seriedade da situação que vivemos e por estratégia otimista. Penso, por exemplo, no modo exageradamente festeiro e quase doentio da nossa cultura brasileira, na exclusão social acentuada, no nosso consumismo, na idéia obsessiva de desenvolvimento e no colapso ecológico que caminhamos.

     

    Durante muito tempo ouvi dizer que a cultura brasileira se destacava das demais por ser de uma gente alegre, sorridente, que gosta de festa, propensa às celebrações. Também li várias coisas que corroboraram com esse senso comum, das quais discorriam sobre a gênese brasileira que tendia a formação de uma gente alegre a partir dos portugueses e sua influência Moura, da afrodescendência e toda tradição indígena. Acho que existe um exagero nesse apregoamento de que nos destacamos exclusivamente por sermos de uma cultura da festa, de sermos naturalmente, por formação, propensos as festividades.

     

    Pude entrar em contato, diretamente com pessoas ou em passagens pelos países, com algumas outras culturas (as árabes, a persa, algumas tradições do estremo oriente, da África Negra, da América Latina e até certas culturas européias e da América do Norte) e também lá encontrei a alegria, a vontade de celebrar a vida, o sorriso gratuito e as festas. Talvez por acreditarmos que vivemos em “berço esplêndido” nos leve a acharmos que somos o umbigo do mundo!

     

    Mas se a característica de gente alegre, sorridente, que gosta de festa e propensa a tantas e compulsivas celebrações não seja algo próprio da nossa cultura, o que explica a quantidade de festas e movimentos festivos em um país com tantos e gravíssimos problemas como nosso? Não que devamos, em minha opinião, enlutarmos e vivermos em reclusão por causa das desgraças que nos assolam. Longe disso! Particularmente, adoro as comemorações, as festas, as celebrações, o carnaval e toda polissemia extravasada desses momentos. Mas a pergunta ainda pouco colocada se orienta para a aberração entre a desgraça e a graça, entre a miséria e a opulência, entre a falta e a fartura, entre o desespero diante da miséria e a obsessividade por festas.

     

    É provável que exista realmente um jeito de sermos alegres, um jeito brasileiro de se alegrar, é provável que tenhamos uma sabedoria afirmadora de vida, mas certamente não a única. Entretanto, não penso que esse jeito alegre de ser seja a razão das festividades que assolam os nossos calendários. Não tenho uma vivência direta do Sul do país e nem do Norte, portanto falo muito mais a partir da realidade do Nordeste brasileiro. Nesta realidade conheço o litoral e o interior. Posso afirmar, por minha vivência, que a quantidade e qualidade das festas destoam em relação ao contexto que as pessoas vivem.

     

    Como já afirmei não sou avesso as festas. Também não me sinto portando um discurso “careta” e nem acho que sou “ruim da cabeça ou doente do pé”. Nada disso! Eu quero chamar atenção, embora já há muito batido, àquilo que Marx já apontava como o ópio do povo, quando se referia ao efeito das religiões nas massas oprimidas. Eu quero chamar atenção à alguns dos processos psicológicos coletivos estudados pela psicanálise como o inconsciente. Finalmente, eu quero chamar atenção à antiga receita romana para controle das populações, a saber, o chicote e o circo!

     

    Esse excesso de festas oficiais, as infindáveis lavagens, os micaretas, os trios elétricos e as bandas de todos os tipos promovidos pelo estado e prefeituras que, muitas vezes, chegam a tocar todos os finais de semanas nas capitais e em diversas cidades do interior, sem falar nas festas promovidas por particulares, sejam casas de shows ou bares, são qualquer coisa de bizarro.

     

    É bizarro, sobretudo, quando se trata de um país que, ao mesmo tempo, convive com um terço da população abaixo da linha da pobreza, ou seja, em miséria; em um país que existe um dos maiores índices de concentração de renda; em país onde a corrupção está enraizada desde as pequenas estruturas burocráticas até os altos escalões dos três poderes; em um país que vive uma guerra civil por causa do narcotráfico; em um país onde a violência se banalizou; um país onde a vida vale quase nada, principalmente se tratando das populações de baixa renda...

     

    A idéia de ópio do povo para Marx era a compreensão da participação das instituições religiosas na trama das classes sociais, entorpecendo e anestesiando a população, mesmo esta vivendo sob condições de miséria, deixando-a conformada e amansada. É provável que as festas tenham um efeito opiáceo. De um outro modo, mas sem fugir totalmente da idéia de entorpecimento, as festas no nosso contexto, podem esconder algo presente nas populações, talvez algo relacionado à desilusão, ao desespero... E as festas talvez sirvam como uma negação ou uma fuga de uma realidade inexorável. A psicanálise, através dos seus estudos sobre o inconsciente tenta revelar que os aparentes comportamentos podem esconder razões diversas e até contrárias àquelas manifestadas.

     

    Essas reflexões e as vivências neste nosso contexto de festas excessivas, festialidades, me fazem supor o óbvio. Fazem-me desconfiar de uma intenção proposital no sentido de produzir essa repetição neurótica. Afinal, se ganha muito dinheiro em fazer festas e não é desconhecimento de ninguém que o povo fica gostando de festas, mesmo se na casa não tem o que comer. Conheci, inclusive, um interior perto de Salvador que o prefeito, todo domingo, colocava uma banda na praça e quando terminava, anunciava: “no próximo domingo tem mais!”. O povão ia à loucura! Diga-se de passagem, esse político perdurou no poder alguns mandatos, mesmo sendo um corrupto descarado. Certamente isso não seria a velha receita romana do chicote (o estado de miséria) e do circo (as festas)?!

     

    E de novo a música do Camisa de Vênus, cantada por Marcelo Nova, zuni em minha cabeça, tudo isso um dia acaba, para de novo começar.... Agora ela me faz deparar diante dos intermináveis produtos que consumimos, do lixo que produzimos, da quantidade de plásticos que desembalamos dos presentes para encher as lixeiras. É incrível como quase tudo vira descartável! Recentemente li na Revista Isto É uma chamada do resultado de uma pesquisa estatística sobre o tempo que as pessoas ficam com um aparelho de celular: os japoneses foram os campeões, passam cerca de 9 meses com um aparelho, depois trocam por outro! Tudo está sendo feito para não durar, pois o mais importante é consumir mais, cada vez mais! Essa velocidade que vivemos não é, a meu ver, uma velocidade que nos leve ou que nos conduza à aprendizagem, mas sim uma repetição, um movimento de re-posição[4] mecânica, um “movimento” neurótico.  Porém, até quando sustentaremos tal condição?!

     

    Eu cresci na beira da praia. Meu pai sempre me levava para pescar e recordo das praias desertas, limpas e da boa quantidade e variedade de peixes que pegávamos. Hoje, percorro vários e longos trechos do litoral e é comum encontrar muito lixo na praia. Sim! E os peixes? Bem, quando consigo pegar um, mesmo pequeno, é uma alegria para meu filho. E por falar nele, outro dia me perguntou se a Cobra Cipó estava em extinção. Eu respondi que todos os animais estão caminhando para extinção... Ou se pensa que não?!

     

    Uma vez um amigo me fez conhecer um trecho de uma música do Raul Seixas que traz uma analogia entre o planeta Terra, os homens que nela habitam e o cachorro pulguento. A terra seria que nem o cachorro pulguento, quando não mais suportasse o incômodo levantaria e sacudiria todas as pulgas. Não estaria a Terra sacudindo suas pulgas quando produz os Tsunamis, efeito estufa, descongelamento das placas...?

     

    Em minha opinião, o que está errado não é deixar de poluir de um jeito ou de outro, deixar de consumir de um jeito ou de outro. O que está errado é a própria concepção de desenvolvimento! Temos uma concepção de desenvolvimento obsessiva. Até a população humana que existe no planeta é demasiada, concorrendo deslealmente com todos os outros seres, ainda mais sob a condição do consumo. O nosso modo de produção se baseia na acumulação de riquezas e não no saciamento das reais necessidades de vida em consonância e respeito com o ecossistema. Dizemos a toda hora que precisamos sempre mais e mais nos desenvolver. Não é isso que vemos nos avisos dos resultados estatísticos de crescimento econômico do país, das nossas cidades e das empresas?!

     

    Infelizmente existem muitos interesses financeiros e de poder em jogo. Muito dificilmente reverteremos essa concepção de desenvolvimento que tem como matriz a idéia do homem separado da natureza e da Terra como algo que pisamos sobre ela – explorando-a e extraindo-a! Esquecemos que somos nós parte da natureza e que a Terra também somos nós.

     

    Talvez a única forma de mudarmos essa concepção seja através de uma sacudidela feroz do cachorro. Talvez muitos não suportem, talvez muitos sucumbam, talvez...

     

    Acredito que em determinados momentos o silêncio profundo deve se fazer necessário para alguma tomada de consciência, mínima que seja. Não o barulho, não a algazarra, não o ópio, não a fuga, não os movimentos estereotipados que são tão comuns em nossas festialidades. O silêncio sim! O silêncio que quebra a repetição e possibilita a inauguração de algo verdadeiramente novo; o silêncio que estabelece o contato consigo e com o outro; o silêncio contemplativo e que emerge com verdades irrefutáveis, sejam verdades a respeito da gente mesmo, da situação brasileira ou mesmo do mundo.

     

    Que seja um silêncio sincero e sem preensões de mudar o mundo ou de querer que as outras pessoas mudem, mas um silêncio implicado na reflexão profunda, na entrega de estar e no permitir sentir compartilhar a existência. Eis o momento!

     

    E um desses momentos pode ser o do ritual do Ano Novo. Longe de um Ano Novo travestido de esperanças fáceis de serem vendidas e banalizadas, mas um Ano Novo inspirado numa verdadeira meditação, numa entrega ao momento do Ano Novo com uma perspectiva voltada para superar aquele tempo fatalista e determinista schopenhaueriano que me faz alusão a música do Camisa de Vênus, “tudo isso um dia passa para de novo começar...” Certamente a superação não virá com a busca de novos consumos ou de novas fugas, mas sim com um sincero NOVO para o ANO NOVO!

     

    [1] Psicólogo e professor de psicologia da educação/escolar.

    [3] Para quem acha que música baiana se reduz ao axé musique, está bem enganado. Aqui já foi (e continua sendo) palco de boas e diversificadas produções que fogem à esse pobre e industrializado estilo musical.

    [4] Ciampa chama atenção dos desses movimentos como um processo de alienação que obstaculariza as transformações (CIAMPA, A. da C. A estória do Severino e a história da Severina: um ensaio de psicologia social. São Paulo: Brasilense, 1998).

     

     

    10/23/2006

    Morreram por causa da arrogância

    Morreram por causa da arrogância

     

    Por Marcelo Ribeiro[1]

     

     

    Cento e cinqüenta e quatro pessoas foram mortas por causa da arrogância. Não delas, mas por causa da arrogância de outras pessoas. Essas pessoas, pilotos estadunidenses[2], acharam que no espaço aéreo brasileiro, da Amazônia, era um lugar de ninguém, sem donos, sem vigilância, sem regras.

    Como algumas reportagens sobre a tragédia explicaram, seria uma prática relativamente comum, “testar” os novos aviões recém adquiridos. Então, “testar” o novo avião, mesmo que de forma desautorizada não seria problema, pois a área em questão era vista como sem donos, não vigiada e sem regras.

    O Legacy-600, jato corporativo da Embraer, foi comprado pela empresa de táxi aéreo ExcelAire Service e no seu primeiro vôo, rumo à terra do Tio Sam, os pilotos resolveram desligar o transponder, o equipamento que transmite aos controladores de vôo os dados sobre o avião e sua rota, justamente para fazer manobras não convencionais e não autorizadas.

    Além dessa versão que corre pela mídia, alguns especularam também que o fato dos pilotos terem aumentado a altitude de vôo, de 36.000 pés (10,9 mil metros de altitude) para 37.000 pés (11,2 mil metros de altitude) teria sido para encurtar a viagem e economizar combustível. Detalhe: para aumentar a altitude seria necessário desligar o transponder, pois não havia permissão de vôo para aquela altura.

    Tanto uma versão quanto outra não muda o fato desses caras terem sido responsáveis pela morte dos 154 passageiros da Gol 1907.

    Além de apurar os fatos até as últimas conseqüências e fazer cumprir as leis do nosso país, é importante também atentarmos para um outro aspecto que ultrapassa o julgamento dos indivíduos (pilotos) estadunidenses envolvidos. Esse aspecto tem a ver com a dimensão cultural que permeia e constitui qualquer um de nós.

    A cultura dos E.U.A. vem sendo marcada por uma arrogância. Muitos acontecimentos históricos de proporções macro ou micro-social vem dando prova dessa démarche cultural. A insubordinação aos esforços da ONU em relação às limitações das invasões e ameaça de invasões aos países do oriente médio (Iraque, Afeganistão, Irã...), a recusa em aceitar as recomendações do tratado de Kioto, no que concernem as diminuições de gases poluidores, entre outras, são algumas situações que demonstram essa marca de arrogância presente na atual cultura dos E.U.A..

    Certamente essa arrogância não está presente em todos os estadunidenses e com a mesma intensidade e grau. Porém, essa arrogância está impregnada nos governos, em boa parte das instituições e na ideologia hegemônica que impulsiona a dinâmica desse país.

    Dessa forma, muitas pessoas de lá vivem e expressam essa arrogância, como na tentativa dos empresários da ExcelAire e alguns jornalistas estadunidenses distorcerem o acontecido com o Boeing 737-800 da Gol, que fazia o vôo 1907[3].

    Mais uma vez um episódio, infelizmente cruel para centenas de famílias brasileiras, vem à tona para sinalizar que algo está errado com um país, que é considerado a maior potência do mundo, e também com toda a terra, pois estamos de uma forma ou de outra, ligados.

    Não sou muito otimista em relação aos caminhos ou descaminhos da arrogância, não só dos E.U.A. como de outros países em seus atuais momentos culturais. Acho que, infelizmente, muitas feridas ainda serão abertas e muitas tristezas se seguirão (pensem, por exemplo, nas grandes tensões políticas, nas ameaças de guerras com alto poder de devastação e na destruição e poluição da natureza de modo cada vez mais avassalador). Não imagino que o tempo seja de profundas transformações, mas que seja de resistências. E poder/saber resistir nos tempos atuais é algo muito importante. Portanto, fazer julgar e exigir os reparos legais pela morte das 154 pessoas é poder/saber resistir face à arrogância!

       

     



    [1] Psicólogo e professor.

    [2] Americanos são todos que nascem no continente Norte-americano, na América Central e do Sul. A América do Norte é formado pelo México, E.U.A. e Canadá. Por isso nos referimos a população dos E.U.A como estadunidense e não como americana!

    [3] Eu queria saber se fosse o contrário, o que governo dos E.U.A. faria com os pilotos e diria de nós brasileiros?! O que vocês acham?