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09/06/2008 CoincidênciaNa tradução do I Ching, feita por Richard Wilhem's há no prefácio, que foi escrito por Jung, a idéia de que existe uma relação entre as coisas que acontecem em nossas vidas. Em relação a isso Jung chamou de sincronicidade para marcar a importância da relação entre os acasos. Na vida não teria apenas a lógica linear das causas e dos efeitos. Acredito que os acasos ou as coincidências são muito importantes no processo da pesquisa... Muitas vezes um livro ou um artigo fundamental cai nas mãos da gente como se viesse do nada. Às vezes um encontro casual com alguém nos possibilita compreender ou acessar informações essenciais. É como se a gente tivesse andando sem grandes pretensões, vivendo cada passo da caminhada, deixando os sentidos soltos... Essa, eu acho, é uma boa maneira de descobrir e deixar as coisas acontecerem. Foi exatamente isso que vivemos em um dos nossos passeios na Ville de Québec. Pela manhã fomos ao shopping ver algumas coisas para José Marcelino e na saída alguém veio correndo em nossa direção. Vocês são brasileiros, perguntou Socorro numa grande empolgação. Disse-nos que vivia fora do Brasil a mais de 10 anos e que trabalhava numa loja de confecções. Convidou-nos para sua casa na semana seguinte, pois adoraria conversar sobre o Brasil e matar as saudades. Despedimos-nos com uma sensação gostosa de ter encontrado alguém bem interessante. Mais tarde, já no Centre Ville, passávamos em frente da Rádio Canadá quando dei conta de um som familiar. Era uma música de João Gilberto que estava sendo tocada exatamente no momento que passávamos (os radialistas ficam no térreo e é possível vê-los trabalhando através das grandes janelas de vidro – além disso, as músicas que passam são expandidas para rua). Já no final da tarde estávamos em um mirante belíssimo a apreciar o por do sol. Buscamos um lugar para sentarmos... Após alguns minutos um cara que estava ao lado se aproximou. Era um brasileiro de São Paulo! Uma conversa muito interessante sobre culturas, meio ambiente e economia rolou ao sabor do visual dos palácios, da baia e do entardecer de Québec. Foi um dia fantástico cheio de boas coincidências.
Québec, 08 de junho de 2008. 09/03/2008 Frio no CanadáNo Canadá rola uma piadinha sobre o inverno e o frio que é mais ou menos assim: “por aqui a vida é curta e o inverno é longo”. Estamos em março e lá ainda neva e faz fria. É duro para quem vive esse longo inverno desde novembro. Vejam a mensagem que uma amiga enviou sobre isso:
E o inverno por aqui continua ... Em pleno mês de março, mês da primavera, quando já se imagina a graminha aparecendo e as flores brotando, por aqui, temos mesmo é mais uma tempestade de neve pelo caminho. A previsão para hoje é de 20 cm de neve, muito vento, e consequentemente a formação da famosa "poudrerie" (a neve fresquinha que levanta do solo com o efeito do vento e forma um tipo de fumaça de pó, dificultando a visibilidade). Isso causa muitos transtornos, acidentes de carros, vôos cancelados, e até mesmo escolas fechadas. E olha que aqui eles são realmente preparados para o inverno. Quando chega essa época do ano, todo mundo já está de saco cheio do frio e da neve, pelo menos quase todo mundo, porque conheço um fanático de inverno e ski. Para falar a verdade, vai cansando a ladainha de casaco, bota, gorro, cachecol, luvas, tombos, óculos embaçados, pele seca, dedos gelados, céu cinza, gente abusada, etc, etc ... Já perdi 2 luvas e um gorro, no fundo, porque estou querendo mesmo é ficar sem eles. O melhor é tentar se divertir, praticando algum esporte de inverno, como ski e patinagem. Afinal, como diz a frase: “se não pode vencê-lo, junte-se a Ele”. Juro que tenho tentado e aposto que estou sendo motivo de gargalhadas para alguns espectadores avisados. É isso, tentarei organizar alguns registros dessa época. Calor e luz solar para todos nós!
27/03/2006 St Patrick
Eis uma espécie do carnaval de Montréal. Seguem algumas fotos da festa dos irlandeses, mas que terminou sendo a festa de toda multicultura de Montréal.
19/03/2006 Cheguei de novoJá estou em Montreal! Da última vez que escrevi aqui até o momento, muitas coisas aconteceram... Algumas se perderam na escuridão do esquecimento e outras permanecem enquanto podem em minhas lembranças sempre bombardeadas com acontecimentos que exigem espaços. Semana que vem será minha apresentação no seminário de metodologia. Neste seminário ocorre a defesa do contexto, problemática, questões, objetivos e, principalmente, da metodologia da pesquisa. Depois dessa etapa os alunos são “autorizados” a continuar a aperfeiçoar a metodologia e ir para o campo. Isso representa um momento muito importante no doutorado. Estou por demais apreensivo com a apresentação! Além de ser uma parte importantíssima e difícil do processo tem toda história de estar defendendo e organizando as idéias numa outra língua, mas como gosto de dar vazão as minhas intuições acho que no final tudo vai dar certo. 26/11/2005 O ministro e a margarinaCada vez mais me fascino com este país. Recentemente foi eleito o novo chefe do principal partido do Québec - PQ, André Boisclair (caso haja a separação do Québec em relação ao Canadá, ele poderá ser o primeiro ministro). Acontece que Boisclair foi acusado de ter usado cocaína e assumiu publicamente sua homessexualidade! Voilà, ele foi eleito! Ao mesmo tempo em que o povo québécois não se importa muito com essas coisas da vida privada dos seus políticos, manifesta uma postura dura em relação a outras coisas. Por exemplo: existe a chamada guerra da margarina. Os produtores/vendedores desse produto lutam para que a margarina seja produzida com uma cor amarela para concorrer com a manteiga. Há quase 40 anos essa guerra rola e até hoje não existe acordo! O Québec é um pouco isso: Ministro gay e que dá uma cheiradinha de temps en temps, pode! Margarina amarela, não!
![]() 23/11/2005 O Quebec e a marijuanaVocês sabiam que o Québec é um grande produtor de maconha?! E das boas! Embora ilegal (até o momento) no Canadá, a maconha produzida aqui é considerada como geneticamente modificada (melhoramento genético para dar maior concentração do THC e menos odor), mas os malucos daqui preferem chamar de "geneticamente acentuada". E por falar em nomes a erva por aqui é conhecida como marijuana ou como pot.
O Québec é bastante liberal em relação ao uso da bichinha. Aliás, boa parte das pessoas que conheci aqui (casados, solteiros, homens, mulheres, da capital ou do interior, jovens ou idosos) fuma de temps en temps. Até nas portas dos shoppings se fuma! Outro dia mesmo estava saindo de um shopping e senti um certo cheiro. Uh! O cheiro vinha de uma galera de adolescentes que fumava tranquilamente na entrada de uma loja. Todo mundo numa boa!
P.S. Existe no Canadá um partido da maconha: http://www.marijuanaparty.com/index.fr.php3 21/10/2005 Os primeiros impactosAcho que a vida no primeiro ano em um país estrangeiro é algo muito rico em termos de experiência e ao mesmo tempo atravessado de ambigüidades e contradições.
Eis um registro que fiz dessa experiência do primeiro ano aqui no Québec:
As aprendizagens são muitas. Atravessam vários níveis: a língua, a adaptação ao clima, à comida, aos códigos sociais, etc.
Contudo, tem uma coisa que chama minha atenção no meio dessa mistura intensa de sentimentos e pensamentos. É a ambivalência oriunda de poder contrastar duas realidades distintas: a daqui e a daí.
A cidade que estou é uma cidade de médio a pequeno porte. Aqui é possível sentir e viver todo aquele nosso ideal de sociedade na prática. Constato que todas as pessoas têm suas necessidades básicas atendidas, todas as crianças nas escolas, todos com suas boas casas, todos bem alimentados, todos preocupados e envolvidos em relação às questões do futuro e caminho da cidade, da sociedade e do país que pertecem... Aqui parece ser uma sociedade que conseguiu distribuir equitativamente suas riquezas. De modo geral, não há enormes diferenças entre as classes ricas e mais pobres.
Bem, estas constatações me deixam extasiado, mas ao mesmo tempo sinto desolação e revolta pela nossa realidade. E este sentimento de desolação e revolta se acentua quando, ao ler as notícias do Brasil, fico sabendo que as coisas continuam as mesmas, que as perspectivas são de permanência desse status quo de grandes injustiças sociais. P.S. Eu vou ser sincero com vocês. Ando meio sem inspiração para escrever algumas coisas e por isso estou recuperando antigas observações e comentários que eu fiz o ano passado. Acredito, porém, que são atuais e pertinentes para este diário de bordo.
13/10/2005 O Québec é um país! Um pouco da sua história...Com certeza a língua francesa é uma bela língua e mais certeza ainda é uma língua-chave para algumas das grandes artes da humanidade. Mas há particularidades muito interessantes nesta parte da América do Norte que se fala francês. A primeira delas é que, embora o Québec seja atualmente uma província (estado) do Canadá, há todo um movimento de independência. Na verdade um resgate do que teria sido a Nova França (a grande colônia da França na América do Norte, que ia desde os estados do sul dos E.U.A. até o Alaska). Porém, como a França teve outros interesses econômicos, além de ter sido debilitada pela guerra contra a Inglaterra, tanto na Europa quanto nas disputas das colônias, abandonou os seus colonos na América, largando-os à própria sorte e aos sabores dos ingleses – os novos donos do América do Norte! Estes colonos, de origem francesa, sobreviveram durante séculos sob o abandono da sua pátria-mátria, opressão dos ingleses (que proibiu a língua francesa durante muitos anos e a prática da religião católica) e a dureza de uma natureza gelada. Na verdade, não só sobreviveram como conseguiram inverter um pouco a situação. Atualmente, em termos de produção cultural, existem muitas coisas importantes e significativas do lado francês do Canadá. Na década de 80 houve um referendo no Québec para a independência do Québec. Pouco menos de 20% da população do Québec voltou a favor. Na década de 90 houve um novo referendo e desta vez a independência só não aconteceu por causa de uma diferença de 1%. Em breve haverá um novo referendo e mais uma vez as portas do futuro desse país (Québec) estarão abertas...
05/10/2005 Como estudar no Quebec
Eu posso dizer que é complicado e não é ao mesmo tempo. Acho que já comecei mal, né!? A primeira coisa a fazer é entrar em contato com a universidade que se pretende estudar e receber o aceite da universidade. Algumas vão exigir uma avaliação, mas isso dependerá do nível do curso (graduação, mestrado, MBA, doutorado, etc.). Lembre-se que no Québec fala-se francês, mas é sempre importante o inglês. Algumas universidades brasileiras (UNEB, a estadual do Ceará e do Rio Grande Sul) têm convênios com universidades do Québec, mas também se pode tentar através de instituições como OEA, que oferece bolsas de estudos ( http://www.oas.org/main/portuguese/ ). É importante lembrar que as universidades no Canadá são pagas! E para estrangeiro é mais cara do que para os nativos. Depois de enfrentar essa burocracia vem a outra parte, que é a dos documentos para entrar no país. Você precisa solicitar uma autorização de estudo ao governo federal (Canadá) e ao governo providencial (Québec), mas isso as universidades brasileiras ou instituições financiadoras das bolsas envolvidas podem orientar. Caso contrário você vai ter que fazer isso sozinho ou então vai pagar para algum “boy” ligado ao consulado do Canadá no Brasil para fazer essas coisas. Para essa autorização precisa desembolsar uma grana, além de fazer exames médicos em lugares credenciados (e privados!). Tendo esses documentos você vai entrar com o pedido de visto no consulado do Canadá no Brasil ( http://www.consulados.com.br/consulados/canada.html ). Entre papeladas e exames médicos reserve pelo menos R$ 1.000,00. Apesar desses problemas iniciais o resto é mais fácil. Aqui é considerado, entre os países mais desenvolvidos, como um dos mais baratos para se viver. Em média é possível pagar o aluguel, garantir o transporte, alimentação e algum lazer com R$ 1000,00 por mês. E se você pensa em pedir no futuro uma residência permanente (direito de morar e trabalhar por tempo indeterminado) não é difícil. Eu mesmo conheço vários colegas que pediram e conseguiram a R.P. Site oficial sobre estudar no Canadá: http://www.studycanada.ca/brazil/brasil_mapadosite.htm
Aonde estouUm pouco para situar vocês... Estou estudando na Université du Québec à Chicoutimi - UQAC. Trata-se de uma rede de universidades (Université du Québec à .....). Essas universidades estão localizadas em várias cidades da província (estado) do Québec. Chicoutimi é o nome da cidade que moro. Ela faz parte de uma das mais bonitas regiões do Québec, que se chama Saguenay – Lac-Saint-Jean. Na verdade são duas regiões que foram unificadas. Aqui é repleto de lagos, montanhas e rios. Seguem alguns sites para vocês sacarem um pouquinho: Site da Université du Québec à Chicoutimi (existe uma sessão que apresenta um pouco a cidade): Site oficial do Saguenay: http://www.ville.saguenay.qc.ca/portail/wps/portal Site turístico do Saguenay Lac St Jean: http://www.tourismesaguenaylacsaintjean.qc.ca/introduction.htm Site turístico oficial do governo do Québec a respeito da região: http://www.bonjourquebec.com/francais/regions/saguenay.html 25/08/2005 Por que eu vim para ca?Por que eu vim para cá?
Esta já uma pergunta clássica. Quase todo mundo que conheço aqui pergunta: por que você veio para cá? Depois de responder algumas vezes percebi que, a cada resposta, havia uma razão diferente. Digamos que tenho muitas razões e nenhuma ao mesmo tempo. É certo que desde adolescente acalentava aqueles sonhos juvenis de sair pelo mundo em busca de grandes aventuras em terras e com pessoas desconhecidas... Pode ser que tenha alimentado esse sonho ao longo do tempo. Uma outra razão está relacionada ao aspecto mais prático da coisa. Como terminei um mestrado conveniado UNEB/UQAC, tive a facilidade de continuar os estudos aqui no Canadá. Tem também a questão da minha orientadora. Vim para cá para dar continuidade aos estudos sobre formação profissional docente com uma das maiores pesquisadoras da área, professora Marta Anadón. Apesar de todas essas razões existe uma outra mais filosófica ou antropológica, se quiser assim dizer. Acredito que no Brasil há uma ênfase num modelo reflexivo de produção cultural, particularmente refiro-me ao modo como nos relacionamos com a produção do saber e mais particularmente ainda em relação à educação. Acho que podemos e devemos aprender um pouco com uma cultura pragmática, que aqui é bem acentuada. Mas atenção! Venho descobrindo que não precisamos e devemos desenvolver uma cultura pragmática nos moldes dos E.U.A, por exemplo. Talvez possamos desenvolver um pragmatismo diferente.. Isto ainda é nebuloso para mim, mas farejo qualquer coisa nesse sentindo... Então... Eis os motivos (ou não motivos) do por que vim para cá... Provavelmente estarei acrescentando outros à medida que o tempo passar e outras pessoas perguntarem por que.... 20/08/2005 ColoquioOntem cheguei de Outaouais, que fica ao lado de Ottawa, a capital do Canadá (como se fosse Juazeiro e Petrolina, separadas por uma ponte). Estava participando do Colóquio do doutorado. Muitas coisas legais foram apresentadas e discutidas, mas as coisas que mais me chamaram atenção não estavam relacionadas ao conteúdo do colóquio. A primeira coisa que me chamou atenção foi a disciplina da cultura daqui. Isto em termos de cumprir os horários, de funcionar de organizar as coisas. E essa disciplina não era algo imposto pelos organizadores. Fazia parte do modo de ser das pessoas (é claro que existem particularidades do quebecois em termos da espontaneidade e que mais tarde falarei sobre isso). A outra foi relacionada a fartura que existe aqui. Só para se ter uma idéia o colóquio foi praticamente de graça (com hotel de primeira, comida, teatro, etc., etc.) para todo mundo, inclusive um bocado de gente que veio de outras cidades! Por aqui acontece o contrário em relação a muitos países: falta profissional para ocupar empregos! A representante da Universidade do Quebec, na conferência de encerramento, falou de modo preocupado porque que a partir de 2006 vai faltar professor nas universidades! Imagine! Enquanto no Brasil existe briga, tapas, etc. para ocupar vaguinhas mal remuneradas, aqui eles oferecem bons salários e pedem por favor para alguém ocupar os cargos! Uma professora, também preocupada com a falta de profissionais, falou para mim de sua idéia em produzir um livreto descrevendo as vantagens em ser professor/pesquisador na universidade. Isto para motivar os jovens a se engajarem. Realmente são mundos diferentes... Mas apesar de todas as diferenças, muitas vezes de modo negativo para o Brasil, ainda prefiro o meu país! Uma pena que ainda muitos brasileiros morrem de Brasil... Uma pena mesmo.... |
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