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10/18/2009 A MIRÍADE DO OBJETOAcabo de terminar a redação da tese. É certo que o trabalho não foi definitivamente concluído. Talvez tenha começado a parte mais minuciosa, que é a revisão detalhada, a leitura geral escrutinada e a tradução para o francês. Ao mesmo tempo em que tenho consciência de todas essas tarefas a serem cumpridas, tenho a boa sensação de algo fechado, concluído (mesmo que parcialmente), acabado...
Fico aqui a pensar, isso me parece inevitável, no percurso, no caminho, na estrada doutoral que vivi pé a pé, passo a passo, emoção a emoção. Algumas abstrações eu extraiu dessa aventura toda, sobretudo no que diz respeito à minha aprendizagem profissional e pessoal, fruto das experiências todas. Dito isto, aqui focarei apenas uma milésima parte, que é a busca de um objeto (de pesquisa) perdido ou que se pretende encontrar.
A miríade do objeto de pesquisa se configura em seu começo como um esboço, uma idéia relativamente delineada que o pesquisador faz em seu projeto de pesquisa. A miríade é justamente um quantum, uma quantidade indeterminada, porém grandíssima de tudo aquilo que se deseja buscar (obviamente apoiado pelas metodologias, sejam elas as mais “duras” ou as mais “moles”).
Ao final da jornada, resta ao pesquisador a percepção de uma espécie de resultado dos jogos de espelho, em que os reflexos construídos do objeto, que sofreu transformações (as vezes mínimas, as vezes drásticas) ao longo da pesquisa, configuram-se como uma imagem composta como aquela que surge em um caleidoscópio.
Ao chegar na derradeira fase da tese, tenho a sensação de dever cumprido, mas também de inacabamento. Muito provavelmente, esta ambígua sensação tem a ver com a ilusão do pesquisador que, como o viajante perdido no deserto, percorre uma determinada trajetória em busca do oásis enquanto efeito provocado pelas condições do próprio deserto. O pesquisador também percorre um caminho a partir da miríade do seu objeto. Este, em si, nunca será alcançado porque não existe em si e porque é sempre escapável. Apesar dessa inútil busca, o esforço não deve ser desprezado, pois é justamente por causa da busca que se produz o conhecimento, não em alcançar, mas em percorrer.
Foi, portanto, na “estrada” desse projeto e desta tese, que pude testemunhar uma série de construções e descobertas que fizeram sentido no limite proposto pelos objetivos e questões da própria pesquisa. 6/22/2008 Estar só...Estar só... Alguns filósofos e pensadores já meditaram sobre a condição humana, ou melhor, da condição do indivíduo humano estar só. Já houve quem falasse do ser humano como uma ilha, pois seria impossível um verdadeiro contato ou desnudamento de si para o outro. Houve também quem falasse da impossibilidade de se comunicar o que realmente se passa, demonstrando as limitações da linguagem. Houve também quem observasse a condenação do homem a ser sempre inatingível em sua inteireza existencial. Toda essa situação me faz pensar sobre a produção de conhecimento, o processo de aprendizagem e de investigação. Talvez esses pensamentos cheguem até a mim devido ao momento e situação que me encontro. Agora estou sem os meus companheiros de viagem. Além disso, aqui no Canadá (pelo menos nos interiores) as ruas são desertas, quase que não se vê gente, o silêncio predomina, tudo é muito quieto e o contato consigo mesmo é intenso e por vezes denso. A questão que me coloco é que o processo de construir/descobrir é muito particular. A experiência de uma pesquisa (e tudo que isso envolve) é muito singular e ninguém tem condições de viver pelo outro. As crises, as descobertas, os conflitos, as satisfações, as inquietações e os limites de um processo de pesquisa são intransferíveis e muito próprio de quem o vive. Entretanto, acredito que não dá para ser ingênuo e negar que também somos o que somos porque estamos em relação com os outros. Penso que isso implica dizer que os nossos processos de construção dependem também das relações e interações que estabelecemos com os outros e com o mundo. Acho que tudo isso implica dizer que ao mesmo tempo em que vivemos nossas solitudes nas profundas e singulares experiências, somos também o que somos porque estamos juntos e ligados de um modo indissociado. A vivência científica, portanto, pode ser alguma coisa de extrema singularidade para o indivíduo que a vive, mas ao mesmo tempo de compartilhamento e implicação de um mundo, de um tempo e de um espaço. Chicoutimi, 22 de junho de 2008. 7/23/2007 A dimensão pessoal do pesquisadorA dimensão pessoal do pesquisador
Um pesquisador é antes de tudo uma pessoa. Apesar de deveras óbvia, esta dimensão (da pessoa), que é parte fundamental do pesquisador, não é devidamente assumida no processo da produção do conhecimento e na própria formação do pesquisador[1]. Essa dimensão permite constituir a produção do conhecimento a partir dos rigores e linguagens próprias da ciência ao invés de obscurecê-la. Nesses meus caminhos iniciais venho tentando manter o foco no objeto do meu estudo, como se pudesse fazê-lo de maneira inflexiva. Eu tenho aprendido que manter o foco significa poder dialogar entre tudo aquilo que me rodeia, me toca e me emociona com o objeto de minha pesquisa. Sendo assim, focar não significa colocar uma viseira e só olhar para um anglo. Significa saber ir para outras searas e saber voltar para o interesse de estudo. Certamente esse ir e vir transformam as perspectivas, mas é aí que o diálogo se dá e cumpri sua tarefa de resignificar o objeto de estudo e a própria pessoa do pesquisador a partir do intercambiamento com o mundo.
Remanso, julho de 2007. [1] Em relação a identidade e formação do professor muito se tem pesquisado sobre as suas dimensões, inclusive sobre a dimensão pessoal. |
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