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6/9/2009 DE VOLTA AO COMEÇO...
DE VOLTA AO COMEÇO Chegando perto do final da minha aventura doutoral (meu projeto é fazer a defesa no final deste ano – 2009 – ou no início do ano que vem – 2010) sinto a necessidade de retornar a alguns pontos dessa rica itinerância. “De volta ao começo” será uma espécie de retomada de algumas experiências marcantes e que surge agora como forma de despedida de uma parte importante da minha vida. Alguns capítulos seguirão...
DE VOLTA AO COMEÇO - 1 Parece que foi outro dia. Lembro da triste despedida no Aeroporto 2 Julho, em Salvador, quando embarquei pela primeira vez para o Canadá. Sabia que aquela primeira incursão em Terras do Norte iria demorar muito e que a saudade da minha família seria forte. Olhei para meus filhos, minha esposa, minha mãe, irmão e meu pai. Estávamos tristes. Respirei fundo, dei o cartão de embarque ao responsável, enxuguei as lágrimas e parti. DE VOLTA AO COMEÇO – 2 Ao mesmo tempo em que a tristeza era grande, a ansiedade da viagem e o gosto da aventura também competiam entre si. É difícil qualquer tipo de descrição para chegar ao que sentia naquele momento. Era importante também manter-me bem alerta para os míninos detalhes da viagem. Eu precisava estar atento a todos os passos, a todas as chamadas dos aeroportos, aos documentos que portava e os contatos anotados na agenda. Afinal, iria para um país estranho que eu mal sabia pronunciar uma palavra no idioma.
DE VOLTA AO COMEÇO - 3 Cheguei à Toronto. Se falar em francês seria uma complicação, imagine falar em inglês! O aeroporto era enorme e teria que fazer ainda uma conexão. Meu Deus! E agora? Eu fui que nem um boi que segue a boiada. Nessas horas a intuição e a aguda observação nos detalhes dos avisos são preciosas. Finalmente chegou a hora de entrar no avião que iria para Montreal. Opa! Algum problema. Esqueci a tesourinha na minha pasta! O sensor acusou e uma funcionária do aeroporto me interrogou. Em um primeiro momento não entendi muito que ela dizia. Perguntou se eu era italiano. Disse que era brasileiro e nos comunicamos em um tosco espanhol. Finalmente entendi que foi por causa da tesoura e disse que não haveria problema. A tesourinha poderia ficar como recordação.
DE VOLTA AO COMEÇO – 4 Chego à Montreal e lá está Fernando. Tenho uma sensação de alívio. Parecia que o pior havia passado. Afinal, encontrara alguém conhecido e que falava minha língua! Seu sorriso foi acolhedor (como sempre haveria de ser). Entretanto, o percurso não havia acabado. Faltava ainda enfrentar seis horas de viagem de ônibus rumo à Chicoutimi. Era junho de 2005, portanto, verão no Canadá e fazia muito calor em Montreal. O dia estava bonito. Fernando fez questão de mostrar rapidamente alguns pontos do centro da cidade. Era o tempo suficiente para aguardar o horário de embarque no ônibus. Finalmente nos despedimos e entrei no ônibus, novamente solitário e indo para um lugar mais longe e mais desconhecido ainda. DE VOLTA AO COMEÇO – 5 Estava tudo acertado. Minha orientadora havia organizado minha estada nos primeiros meses em Chicoutimi. Faria um curso de imersão em francês. Era o programa de verão da UQAC, versão 2005. Ficaria hospedado na casa de uma família durante o período do curso, os três meses. A pessoa iria me pegar no terminal rodoviário. Georges Boivin era o seu nome. Não tínhamos idéia de como era um e o outro. Cheguei à Chicoutimi muito cansado. Foram três horas de Salvador à São Paulo, onze horas de vôo de São Paulo à Toronto, duas horas de Toronto à Montréal e seis horas de ônibus de Montreal à Chicoutimi (sem contar as horas de conexão e espera). Por outro lado, a ansiedade era tanta que não me dava conta do esgotamento. Georges me aguardava em seu bonito Chrysler. Sem nos conhecer, adivinhamos um ao outro. Trazia umas duas malas pesadas, fora uma mochila e minha pasta. Era bastante coisa, mas tudo deu no carro. Agora estava eu lá! E para conversar? Meu Deus! Que aflição! Lembro que Georges fez questão de mostrar um pouco a cidade. Levou-me até o cruzeiro, onde pude apreciar a beleza daquela encantadora cidade a beira do rio (qual?). Senti frio e George riu de mim. Afinal, era verão no Canadá!
DE VOLTA AO COMEÇO – 6 Meu primeiro dia de aula. Estava uma semana atrasado. Havia seis níveis de cursos e o meu era o nível um. Nós éramos considerados os bebês do programa. Minha sala era formada, em sua maioria, por jovens de 18 anos e quase todos eram anglofônicos canadenses. Alguns eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia também estrangeiros como eu. Lembro de uma estadunidense e, lógico, meu primeiro e grande amigo iraniano, Behdad Balazard. Como era difícil para mim toda aquela adaptação. Sentia-me totalmente incompetente para aprender o francês. Tinha a sensação de que nunca iria ser capaz de aprender. Eu era um dos mais velhos, professor universitário e iniciando um programa de doutorado, mas isso tudo só me fazia sentir pior. A auto-cobrança pesava. Eu sabia que não tinha muito tempo para aprender o mínimo do francês, pois as aulas do doutorado começariam em setembro daquele ano. Aprender uma língua na situação que me encontrava foi um parto a fórceps. Vivi, literalmente, uma regressão não só por estar iniciando uma nova língua. Percebia que meu comportamento regredia. Meu humor e meus sentimentos oscilavam bastante. O sentimento de insegurança era muito para mim. Às vezes tinha horas que achava que não iria conseguir. Somado a isso, vivia toda sorte de instabilidade na minha universidade e lutava para ter uma bolsa que viabilizasse meu projeto de doutorado no Canadá. DE VOLTA AO COMEÇO – 7 Tive a sorte de encontrar boas pessoas e ser acolhido. Tenho essa perspectiva em relação a vida. Sempre acho que a vida me reserva boas coisas e costumo, não raramente, deixar que a vida me leve. Sempre deu certo! Os colegas estrangeiros, os colegas brasileiros que lá habitavam, funcionários e professores da UQAC e pessoas da própria cidade, todos sempre tiveram algum apreço por mim. Entretanto, algumas pessoas foram muito, muito, especiais como: Marta Anadón (minha orientadora), Carlos Borri (seu marido e companheiro de boas prosas), Corina (filha de Marta e minha colega de doutorado), Jean-Robert Poulin (professor da UQAC e amigo pescador), Martine Maltais (minha querida amiga que tanto me ensinou sobre a educação infantil), Behdad (meu primeiro e grande amigo no Canadá), Justine (amiga do Camarões e colega do doutorado), Georges (meu senhoril), Fernando (amigo e colega da UEFS), Régis (cearense que virou canadense), Carlos Ores (peruano que fazia seu mestrado em engenharia de minas na UQAC) e tantos outros que não conseguiria listar todos. DE VOLTA AO COMEÇO – 8 Foi uma verdadeira luta batalhar por uma bolsa. Da minha universidade tive uma ajuda de custo mais o salário. Cheguei a me inscrever duas vezes para obtenção da bolsa CNPq. Na segunda inscrição, passei para segunda fase (entrevista) na repescagem, porque escrevi protestando o resultado. Fui para Brasília fazer a segunda etapa e na entrevista ouvi de um dos membros da banca que o meu tema já era muito estudado no Brasil. Fui classificado, mas não contemplado para bolsa. Lutei tanto e “morri na praia”. Por um lado ficou o aprendizado e saí dessa experiência com a “pele mais grossa”. O que me salvou foram as bolsas parciais que obtive na própria UQAC - graças a minha orientadora. Em troca, fazia traduções (francês-português) para ela e para outros professores. Além disso, trabalhei como professor de português e ajudante de jardinagem (na casa de Jean-Robert). Tudo isso ajudava a pagar o programa do doutorado (para estrangeiro era muito caro, mas se comparado com outros programas pagos de outros países não é caro) e a me manter no Canadá.
DE VOLTA AO COMEÇO – 9 Que alívio eu senti quando minha orientadora retornou de suas férias e a reencontrei em Chicoutimi. Não estava mais desabrigado. Sabia que havia um porto seguro perto de mim. Mas como essa aventura doutoral era sempre uma caixinha de surpresas, novas coisas me aguardavam. Chegou a hora do início das aulas do doutorado. Meu Deus! Lá vou eu de novo! Lembro do primeiro dia de classe. Disse para mim mesmo: “Marcelo, que merda você veio fazer aqui!?”. A coisa piorava quando eu tinha que falar. O meu francês ainda era muito ruim para ter um desempenho razoável em sala de aula (entendia bem, mas fala com limitações). Tive vontade de me transformar em uma formiga e ficar no canto da sala sem ninguém me ver quando chegou a hora de apresentar meu projeto aos colegas e a banca de professores. Mais uma vez sobrevivi.
4/19/2009 Vergonha na caraParece que tenho tomado vergonha na cara. Aos poucos estou voltando ao trabalho da tese. Nesse momento final que me encontro não tenho mais saco de fazer grandes recenseamentos literários sobre o assunto. Aliás, nem deveria! Preciso me concentrar justamente na fase final, o que me impele a ter uma postura diferente do começo da tese, o que também não impede de continuar com as leituras e com as buscas teóricas ou descobertas de outras experiências. A verdade é que tenho lido muito revistas de popularização sobre educação infantil. Essas revistas têm sido ótimas, pois trazem reportagens, resenhas de livros, textos curtos e específicos sobre os assuntos que me interessam. Tenho tido condições de manter uma leitura ampliada sobre o assunto e, ao mesmo tempo, tenho conseguido “pescar” coisas interessantes para a minha pesquisa em geral. Mas o interessante é que justamente no final da minha aventura tenho descoberto nessas revistinhas (não há sentido pejorativo aqui) um valor incrível, coisa que no começo certamente não valorizava!
Para quem quer conhecer um pouco mais dessas revistas sugiro a leitura, por exemplo, da Revista Educação Infantil (editora Segmento).
Voando entre Recife e Petrolina, 2009. Não estamos sósVivi uma sensação de alívio quando descobri que não sou apenas eu. Isto aconteceu em uma das minhas viagens para Brasília quando encontrei um colega que é professor da UNEB. Freud já há muito falava do quanto a humanidade poderia ganhar em termos de saúde mental se descobrisse que a desgraça individual fosse uma infelicidade coletiva. Isto significa dizer que sofremos muito ao acreditar que só nós, individualmente, único ser em todo o mundo, carregamos certa experiência dolorosa. Por outro lado, quando descobrimos que não estamos só, que existem outros vivendo experiências semelhantes, sentimos um certo reconforto e a infelicidade da amarga experiência, seja ela qual for, passa a ser mais suportável. Realmente, estava me sentindo super mal com o fato que não produzir quase nada em relação ao meu projeto doutoral. Havia muita cobrança interna para trabalhar na tese e, ao mesmo tempo, a coragem e determinação para colocar isso em prática não surgia. Junto a isso, me envolvia com os afazeres do dia-a-dia da universidade que trabalho de tal modo que me consumia por completo. Reencontrei meu colega no saguão do aeroporto de Recife e, enquanto esperávamos o vôo da nossa conexão, batíamos um papo sobre as nossas andanças acadêmicas. Ao relatar o meu estar e tudo mais ele confidenciou-me que estava passando situação semelhante. Também havia se envolvido com várias coisas e que não estava conseguindo se dedicar integralmente para finalizar seu doutorado. Depois disso, demos risada porque pudemos compartilhar nossas mazelas e perceber que não estávamos sós!
Voando entre Recife e Petrolina, 2009.
3/1/2009 VINDO DAS ENTRANHAS - AS CONTRADIÇÕES QUE ME MARCAMNo meu mestrado uma das coisas que mais me marcaram foi o que aprendi com as minhas orientadoras/professoras: Marta Anadón e Stella Rodrigues. Elas diziam, na época que estávamos elaborando nossos projetos de pesquisa, que o nosso objeto de estudos deveria partir das “entranhas”. Elas estavam querendo dizer que para haver genuinidade no processo de investigação, o objeto de estudo deveria dizer respeito a algo que fosse realmente significativo para quem estivesse pesquisado. Pois bem, sobre este doutorado onde investigo o ajustamento de rotinas de professores da educação infantil face às situações de imprevisto, percebo que existem duas grandes coisas que estão relacionadas com a minha existência: a rotina e os imprevistos.
Tanta a rotina quanto os imprevistos e o modo como tento lidar com os dois, representam dimensões profundas que têm muito a ver com o meu jeito de ser. Isto significa dizer em um primeiro momento que me entendo contraditório e ao mesmo tempo de natureza conciliadora. Tento conciliar em mim mesmo aspectos que, muitas vezes, se colocam de formas opostas ou em contradição. Não podendo ser diferente, estendo essa característica no modo como me relaciono com os outros ou como me posiciono no mundo. Percebo-me com a facilidade de transitar em mundos diferentes, em saber gostar de pessoas com estilos e formas de ser diferentes. Em mim mesmo consigo muitas vezes sair de um extremo para o outro e também me apreciar sendo “eus” diferentes.
Voltando para o ponto mais específico que diz respeito a essa reflexão entre o que existe de relação entre o meu objeto de estudo e a minha existência, entre a rotina e os imprevistos, diria que a primeira compreende a minha necessidade de organização, de previsibilidade, de controle, de segurança e de arrumação. Esta parte estaria mais ligada ao meu lado social, ao modo como acho que seria mais facilmente aceito socialmente. Também parece dizer respeito ao lado que me daria uma suposta progressão e sucesso na vida, sobretudo no mundo do trabalho. Gosto desse lado em relação a minha família. Gosto de ter os horários organizados para as refeições, gosto de ver os meus filhos seguindo aquela rotina diária de escola, estudos, lazer...
Por outro lado, a segunda dimensão representa para mim a soltura, a leveza da vida, o meu jeitão desprendido, espontâneo, despreocupado, “bicho solto” e, talvez, o que mais me marcaria como ser.
A grande questão, e essa seria uma questão existencial, é a conciliação entre essas duas dimensões aparentemente incomunicáveis. É justamente aí, como já falei, que configura outro aspecto da minha existência, que é tentar estabelecer diálogo entre opostos ou entre elementos que são muito diferentes.
Tenho me percebido, principalmente nos últimos anos (muito provavelmente por causa da maturidade), que esse meu diálogo interno/externo entre elementos diferentes, opostos e até contraditórios têm se tornado menos conflituoso e mais tranqüilo. E aí tanto a rotina quanto o imprevisto têm sido hoje imprescindíveis para minha vida e para meu processo identitário. Gosto de me ver como uma pessoa que sabe e age valorizando tanto a previsibilidade (rotina) quanto a imprevisibilidade. No fundo, no fundo, sei que o controle sobre a vida é uma ilusão e que a busca de segurança não está numa postura de defesa, de endurecimento, de medo e rigidez em relação a vida e a si mesmo. Ao contrário, sei que o melhor que podemos fazer é seguir o livre fluxo da vida, é deixar ser, é assumir a postura espontânea diante da vida. Entretanto, creio que isso não impede ou não implica em um abandono completo do ser humano em relação a sua história. Lembro-me de uma frase do filme “O último Samurai”, que muito me marcou: “Os homens fazem o que podem até o destino se rebelar”. Isto para mim significa justamente a necessidade que tenho de tentar fazer alguma coisa, representa o meu lado guerreiro, o mau lado de não se conformar com as coisas, de buscar alterar, de planejar algo, de tentar exercer alguma influência sobre o mundo, mas sem, ao mesmo tempo, deixar de saber que existe algo maior que é a natureza, o não controle de tudo, as imponderações, os imprevistos. Acho que é possível viver entre o respeito do imponderável, os imprevistos, o não controle da natureza e a desordem com a rotina, o planejamento e a ordem da vida cotidiana. Acho que há um ganho nessa possibilidade de convivência. É isso que tento entender um pouco mais no âmbito das classes da educação infantil.
Juá, 01 de março de 2009. 1/11/2009 Uma pergunta contra o esquecimento: Para que serve mesmo um mestrado e um doutorado?Apesar de ser relativamente óbvia a pergunta “para que serve um mestrado e um doutorado”, não é algo por tudo esclarecido. Normalmente, se pensa que o mestrado é para formar mestres (professores) e o doutorado para formar pesquisadores. Também se diz que os cursos de stricto senso servem para preparar pesquisadores numa escala de complexidade que vai do mestrado ao doutorado. Bem, pelo menos essas têm sido as compreensões mais disseminadas nos meios acadêmicos. Mas seriam mesmos esses os sentidos primordiais do mestrado e do doutorado? Antes de tudo é importante lembrar que estamos falando de formações profissionais, ou melhor, de tipos de formação continuada que têm importância vital para carreira docente. É verdade que pesquisadores de carreiras, que trabalham em centros de pesquisas, buscam esse tipo de formação. É verdade também que existem os atuais mestrados chamados “profissionais”, que visam qualificar o técnico que está no mercado de trabalho. Entretanto, a grande maioria que busca a formação continuada stricto senso tem como meta a qualificação na carreira docente ou o seu ingresso. Sendo a carreira docente o grande locus para esse tipo de formação profissional cabe uma próxima pergunta, que pode ser, amiúde, vista como deveras evidente: qual o sentido de um mestrado ou um doutorado para carreira docente se esta for impregnada para uma formação de pesquisadores? É claro que há a tão propalada idéia da indissociabilidade entre ensino e pesquisa. O docente precisa da dimensão da pesquisa, faz parte da sua atuação produzir conhecimento, dominar as linguagens da metodologia científica e, não obstante, demanda-se da universidade a produção do conhecimento para possíveis contribuições à sociedade. Não há o que se questionar em relação a isso, mas é mister lembrar as críticas de Wladimir Kourganoff (1990) de que a relação entre ensino e pesquisa não é tão evidente e que há no mundo universitário uma primazia da pesquisa em detrimento do ensino. Isso tem contribuído para uma série de problemas que, em última instância, repercute na qualidade da formação dos estudantes. Um mestrado e um doutorado fazem, ou pelo menos deveriam fazer, sentido para carreira docente se tais formações estiverem em consonância com a melhoria da qualidade do ensino. Isto não significa negar a formação do docente pesquisador ou de preparar o professor para ser um pesquisador. Ao contrário! A pesquisa e sua prática são fundamentais enquanto produtoras de conhecimento e criação de um modo de se relacionar com o conhecimento, que é fundamental para a prática docente. E é isto que precisa estar em mente, que essa formação é para melhorar, no final das contas, a docência como um todo significando, principalmente, uma melhora na qualidade do ensino. Infelizmente, o que tenho constatado é que esse tipo de preocupação, com a qualidade do ensino, está longe das intenções e do afã daqueles que sofrem e se deliciam nos programas de mestrados e doutorados. A áurea inebriante que adentra nos iniciados (e alimentado em sua grande parte pelos próprios “velhos docentes” de tais programas) tem sido, de um modo geral, a de ser unicamente um pesquisador. Esse status de pesquisador, infelizmente, é vivido muitas vezes como algo descolado da dimensão do ensino. Portanto, para todos aqueles que estão na academia ou querem ingressar, um mestrado e um doutorado, na compreensão que venho tendo e mesmo "nadando contra a maré", servem TAMBÉM para melhorar a qualidade de ser docente e isto significa, sobretudo, melhorar o ensino, ser um professor melhor.
Jauá, 27 de dezembro de 2008.
Ref. Bibliográfica KOURGANOFF, Wladimir. A face oculta da universidade. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista. MASETTO, Marcos Tarciso. Competências pedagógicas do professor universitário. São Paulo: Summus, 2003. 12/31/2008 Comentário de DaniMarcelo! Li o que você escreveu no blog recentemente... Embora não esteja no fim do meu doutorado concordo com você, quando falas da obsessividade e da angústia que é produzir algo novo. Há momentos que parece que tocamos nosso alvo/tese com a mão, de tão empolgante que ele se faz pra nós, se concretiza através de nosso desejo de conhece-lo... Mas há terríveis momentos em que ele se perde, sendo-nos tão estranho, a ponto de nos questionarmos como fomos nos meter com tal tema... Pior, as vezes é ver em nosso objeto de estudo aspectos que não se enquadram na academia, que não são publicados no Lattes, mas que estão lá... O objeto estudado as vezes parece brincar conosco oferendo-nos aspectos seus poéticos, sublimes, porém não publicáveis ou interessantes para a academia... em contrapartida esconde de nós tudo que de mais acadêmico precisamos abstrair dele... Eis o desesperador desafio do doutorado... ao menos pra mim. DEUS te conduza meu amigo, na reta final da apreensão dos teus objetos de estudo. Abraço Dani 11/15/2008 MINHA NOVA MISSÃO (PROEN) E OS PROBLEMAS COM O DOUTORADO – A RETA FINAL É MAIS DIFÍCILA especificidade do modo como estou levando o meu doutorado contribui para que eu tenha um percurso diferenciado. Assim como outros colegas que fazem ou fizeram seus programas compatibilizando uma parte ou todo o tempo e o percurso com outras atividades, um doutorado desse jeito tem suas próprias características. Eu não diria que é melhor e nem pior, apenas diferente. A grande questão é saber conciliar o doutorado com as atividades profissionais. Acontece que existem coisas que vão se passando na vida da pessoa que não dá para prever ou não dá para refutar. Foi o que aconteceu comigo, recentemente, ao ser convidado para assumir a pró-reitoria de ensino. Assumi o desafio de liderar essa pró-reitoria, mesmo sabendo dos grandes desafios, dificuldades e absorção do tempo que haveria de encontrar. Certamente a experiência de estar pró-reitor, principalmente de ensino, daria (e dá) para fazer outro diário de bordo como este. É uma grande aventura e não há um dia que não seja pleno de situações desafiadoras, emocionantes e por que não dizer, difíceis, sobretudo no atual contexto da minha universidade. Conciliar um doutorado com o trabalho requer algumas coisas imprescindíveis. A primeira delas é não perder o foco e não se deixar distrair por completo com as atividades profissionais. Eu sei que isto por vezes é inevitável e eu mesmo vivo momentos assim, mas a questão é saber reconduzir o barco e colocar de volta no prumo certo. Não perder jamais o horizonte correto. A segunda coisa é tentar criar uma disciplina mínima. Tentar reservar uma parte do tempo é fundamental. Não precisa ser necessariamente uma reserva diária, mas uma programação que pode ser semanal, quinzenal talvez. A terceira diz respeito a tentar enxergar o tema do doutorado em todos os espaços que você freqüenta e vivencia. Por exemplo: eu trabalho com a questão da rotina e dos imprevistos, então tento ver essas coisas no cotidiano do meu trabalho. Isto ajuda a manter o foco no doutorado e estar ligado mesmo quando minha ação não está voltada a ele diretamente. Por fim, acho que não desistir é a última coisa. Às vezes fica muito difícil continuar o projeto doutoral, sobretudo quando a gente está na metade para o final do projeto. Tudo parece ficar muito cansativo, a gente fica desmotivado, parece que a gente já abusou de tudo. Isto pode ser um grande perigo e aí cabe procurar o orientador, se for o caso, ou então os amigos que já viveram esse processo. 11/3/2008 HISTÓRIA DE UM DOUTORADO: O TEMPO VIVIDOQuase quatro anos já passaram... É certo que terminarei além do prazo normal (quatro anos). Isto tem me angustiado. Talvez em função da minha cobrança em terminar no tempo, mas o que é o temo mesmo? Bem, a cobrança acontece quando passo a me comparar com o tempo de outros colegas que acabaram o doutorado em três anos, por exemplo. Sei que isso é outra coisa e que não devo cair nessa de cobranças. A verdade é que muito tempo já passou e várias coisas aconteceram de lá para cá. Durante esse percurso tenho tristes lembranças da perda de alguns amigos (Severino, Georges, Tarciano e Socorro) e alegres recordações de outras pessoas queridas que eu conheci. Coisas maravilhosas também aconteceram, como o nascimento da minha filha Isabela. O tempo de um doutorado é também o tempo de uma vida. Um caminho que a gente marca em nossa história, um momento de partida e um momento de chegada. A gente vai passando por esse caminho e ele nos passa, sempre deixando marcas assim como também as deixamos. Agora estou com menos cabelos, com um pouco mais de fios brancos... É o envelhecimento físico mostrando seus primeiros sinais... Um doutorado para mim é isso também... É uma história de vida que só pode ser compreendido e significado na história toda de quem o vive. É nesse sentido que para mim a pesquisa, o produzir conhecimento ganha sentido à medida que nos permitimos imbricar com nossas outras dimensões (pessoal, coletiva, etc.). Para valer mesmo, um doutorado tem que se arranhar com a existência. Não é somente um projeto em si, não são apenas as aulas, os experimentos, os instrumentos aplicados ou os textos lidos. É tudo que se vive nas beiradas, no interior, nas vísceras e nos mundos invisíveis do processo. É a separação, o amor reencontrado, a morte do amigo, o nascimento de um filho, a dureza de ficar sem grana, o emprego novo, o desentendimento com o colega e tudo mais que pode se passar. Esta é a história de um doutorado que para valer, para dar sentido, tem que ser vivido e registrado como a vida mesmo de quem o fez. É verdade que o doutorado não é tudo na vida e isto já falei aqui. É mais um começo quando a vida é feita de tantos outros recomeços e por isso mesmo não desprezado e nem super valorizado. A história de um doutorado é a história de uma vida como qualquer outra história ou como qualquer outra vida.
Espaço aéreo brasileiro, 31 de outubro de 2008. 7/11/2008 UMA LIÇÃO
Marta Anadón é uma dessas mulheres fortes e exigentes, mas que tem um grande coração. Ela é espontânea, autêntica, capaz de dizer na cara o que sente e também pedir desculpas quando é o caso. Marta é verdadeiramente uma professora e se coloca nessa condição enquanto orientadora de pesquisa. Com seu jeito seguro e mesmo às vezes duro, às vezes controlador, dá espaço para o outro criar, buscar seus próprios caminhos. Ela normalmente está aberta para o diálogo (mesmo que tenha que brigar antes). Sua acolhida durante todo esse meu processo doutoral não tem como ser descrito em sua inteireza. Ela foi e continua sendo fundamental para eu estar passando pelos desafios. Desta vez, do exame de qualificação, foram inúmeras as vezes que estive em sua casa. Trabalhamos juntos... Ela corrigiu meu trabalho página por página... Além disso tudo, tem sido uma amiga. Espero que o que ela tem me ensinado eu possa passar também para os meus alunos.
6/8/2008 Sentem-se corretamenteSENTEM-SE CORRETAMENTE!*
Senhoras e senhores que estão entrando na Pós-Graduação em 2007: Sentem-se corretamente. Nunca deixem de sentar-se corretamente. Os benefícios, a longo do prazo, de sentar-se corretamente estão provados e comprovados pela ciência. Se eu pudesse os oferecer apenas uma sugestão para o futuro, seria sentar corretamente Já o resto de minhas sugestões não tem outra base confiável, além de minha própria experiência. Mas agora, eu vou compartilhar esses conselhos com vocês: Aproveitem bem, o máximo que puder, o poder e a beleza de sua juventude. Ela vai estar acabando quando você terminar a pós-graduação. Mas, pode crer. Daqui a vinte anos, você vai olhar as suas fotos e perceber em quantas fotos mais legais vocês poderiam estar se não estivessem tentando concluir a pós. E como vocês realmente estavam com tudo em cima. Vocês não estavam gordos ou gordas, ou carecas, ou cheios de rugas. Não se preocupe com o futuro. As encrencas de verdade de sua vida de pós-graduação tendem a vir com coisas que nunca passaram pela sua cabeça e te pegam de surpresa quando você menos espera, a três dias do fim do prazo. Não se preocupe em publicar. Ou se preocupe, sabendo que se preocupar com isso é tão efetivo quanto tentar convencer seu orientador de que ele está errado. Não perca tempo com inveja. Às vezes você está por cima de seus colegas, às vezes não (exceto claro, do seu orientador. Você nunca vai estar por cima dele). Não gaste seu tempo encaminhando e-mails. Às vezes eles são engraçados. Às vezes não são. A Pós é longa e, no fim, vocês não terão tantos amigos quanto tinham quando terminaram a graduação. E os que não fizeram pós provavelmente estarão ganhando mais que você também. Não esqueçam os elogios que receberem do seu orientador. Esqueçam todas as correções e re-correções em seus trabalhos quando vocês achavam que estavam bons. (Se alguém conseguir fazer isso, me avise como é). Guardem as cartas dos amores que vocês perderem por estar estudando. Joguem fora os extratos bancários que mostram que a bolsa do próximo mês também já está acabando. Não se sinta culpado de não entender pra que serve seu trabalho. Algumas das pessoas mais interessantes que aparecem em congressos não sabiam aos 25 pra que serviam seus mestrados. Alguns dos doutores mais interessantes que conheço ainda não sabem. Tente namorar. Você não é tão preguiçoso quanto pensa. Não leia artigos de periódicos.. Eles só os farão se sentir estúpidos Conheça os membros de sua banca. Você nunca sabe quando eles entrarão de férias, irão para o pós-doutorado ou tirarão uma licença Sabática. Seja legal com seus colegas de grupo de pesquisa.. Eles são sua melhor chance de que alguém vai prestar atenção no seu trabalho. Entenda que disciplinas vão e vem, mesmo que pense em se suicidar durante alguma delas. Vá uma vez para fora com uma bolsa sanduíche, mas volte antes de achar que o laboratório não presta pra nada. Dê aula uma vez em uma faculdade de interior, mas volte antes de achar que o laboratório é o paraíso. Tire cochilos. Aceite algumas verdades irrefutáveis: comida não é de graça. Professores não se importam com o que vocês dizem. Vocês, também, vão ficar cada vez mais amargos com o tempo e, quando acontecer, irão fantasiar que a comida era de graça e os professores os escutavam. Não mexa demais nos dados. A banca sempre vai achar problemas de qualquer jeito. Talvez vocês concluam o programa, e talvez vocês não o façam. Talvez vocês contribuam para a sociedade, talvez não. Talvez vocês fiquem por aqui, ou talvez vocês abandonem tudo e vão viver a vida. O que quer que façam, tentem não trabalhar demais. Os temas de suas dissertações e teses são meio que inventados mesmo. Assim como o de todo mundo. Não se desespere na defesa. Não é porque você apresentou dois ou quatro anos de trabalho em quarenta minutos que eles foram insignificantes. E cuidado ao fazer alterações com base nas sugestões para a dissertação ou tese, mas seja paciente com a banca quando eles estiverem as fazendo. Isso é só porque não foram eles que escreveram nem orientaram o trabalho. E isso é um jeito de pegar seu trabalho do lixo, colocar a capa dura, fingir que não viram as correções de vermelho e achar que aquilo valia a pena. Mas acredite em mim quando sugiro que vocês devem sentar-se corretamente. Texto traduzido e adaptado por Aécio Neto, baseado em "Sit Up Straight!", de Jorge Cham, publicado em 3 de novembro de 1999 na tirinha online Piles Higher and Deeper (www.phdcomics.com), que por sua vez é baseado em Everybody's Free (to Use Sunscreen), de Baz Luhrmann. E sim, essa é uma paródia de uma paródia. O que faz pensar que isso é diferente do que fazemos na pós-graduação??? 6/4/2008 ConciliandoAbordarei agora algo que falei sobre o receio em perder o foco nessa viagem (estou com dois amigos a passeio e ficaremos dez dias em Québec, aonde acontecerão as comemoraçcões dos 400 de existência da cidade). Bem, esse lance de não perder o foco que acabei de situar tem muito a ver com algo que persigo que é conciliar as coisas. Certa vez, no começo da minha graduação, li um texto que o autor dizia que muitas escolhas não precisam do “ou”, uma coisa OU outra. Ele dizia que muitas vezes podemos utilizar o “e” (conjugação aditiva). É certo que nem sempre é possível, mas procuro majoritariamente conciliar as coisas em minha vida. Isto está presente inclusive no meu projeto de pesquisa. Não é por acaso que trabalho com a questão da rotina e do imprevisto na sala de aula. A questão de conciliar está presente também nessa viagem, quando tento integrar a parte festiva e os amigos com a atual missão, que é o exame de qualificação. Entretanto, buscar essas conciliações parece requerer uma atenção a mais ou um algo a mais. Digo isso porque estar em um lado da coisa só é possível na entrega de viver esse lado, mas ao mesmo tempo é importante deixar-se levar para o outro lado também. Na questão do meu projeto o que acontece é enxergo que a rotina no cotidiano dos professores é fundamental para seu trabalho, mas ficar preso nela pode ser paralisador. Do outro lado, improvisar (lidar com o imprevisto) é salutar porque indica criatividade e flexibilidade na ação docente, mas não se planejar e estabelecer algumas repetições podem ser igualmente paralisantes na ação docente que vise verdadeiramente fins pedagógicos. Acho que saber estar nesse lugar do entre, entre uma coisa e outra nem sempre é possível, como já disse, mas buscar estar nesse lugar é, variavelmente, interessante para inaugurar novas perspectivas de se situar no mundo e de um jeito mais próximo das nossas reais necessidades, do fluxo das coisas e dos acontecimentos.
Québec, 04 de junho de 2008. 6/1/2008 E lá vou eu de novo
E lá vou eu de novo! A peregrinação vai se dar da seguinte forma: saiu hoje de juazeiro para Salvador. Irei de carro e serão 500 km de viagem. Devo chegar por volta das 15h e aproveitarei a tarde de domingo para comprar algumas lembranças para os amigos do Canadá. Na segunda pela manhã pegarei o vôo para São Paulo. A chegada está prevista para as 13h no aeroporto de Guarulhos. Lá ficarei vagando até as 20h30 quando, finalmente, estarei embarcando para Toronto. Dez horas depois de uma viagem direta farei conexão para Montreal e, finalmente, por volta das 11h estarei chegando ao meu destino. Ufa! Bem, ainda terei a viagem para a cidade de Quebec e para Chicoutimi, mas aí serão outras histórias...
A novidade dessa viagem é que irei acompanhado. Um primo de minha esposa (José Marcelino) e um colega (Eduardo) estarão embarcado nessa aventura. Eles irão passear, fazer contatos com universidades e conhecer esse belo país. A proposta inicial é ficar uns dez dias e depois eles retornam. Alugamos um apartamento na cidade de Quebec, mas antes ficaremos uns três dias em Montreal. Acho que essa viagem vai ser bastante interessante. Eu só não posso perder meu foco e minha maior missão dessa vez que é o meu exame de qualificação!
Juazeiro, 31 de maio de 2008. 4/6/2008 A solidão do doutoradoO doutorado pode ser considerado uma viagem solitária... Normalmente a duração de um doutorado é de quatro anos. É claro que isso vai depender também do programa e do ritmo de cada estudante. Bem, desses quatro anos, entre um a dois anos é consagrado às disciplinas do curso. Daí em diante não há mais turma, não há praticamente mais encontro em grupos ou aulas a serem ministradas, trabalhos a serem entregues... Tudo que há é o encontro íntimo do estudante com o seu objeto de estudo. E esse encontro vai tomando cada vez mais profundidade, atingindo níveis muitas vezes abissais. E mares tão profundos impedem a luz de clarear o percurso. A escuridão e o frio da solitude só são amenizados quando o orientador se aproxima e, servindo como um bálsamo apóia a continuidade da viagem. Em grande parte essa vivência da solidão, essa falta de parceiros que compartilhem do mesmo objeto de estudo tem a ver com especificidade própria da irreptibilidade do conhecimento desejado pelo sujeito. Nem mesmo o orientador vai estar tão próximo do objeto de estudo quanto aquele que o elegeu (o doutorando). Só este tem a intimidade suficiente para buscar o que se quer. No máximo, o orientador torna-se um bom interlocutor do processo de construção de conhecimento. Além disso, pode exercer um outro papel fundamental que é quando o doutorando se perde na viagem, se esgota no frio ou se desespera na solidão. Nesses momentos, o orientador aparece para apoiá-lo e animá-lo a seguir em frente. Entre orientador e orientado se instaura um diálogo... mas isso não retira uma das vivências intrínsecas desse processo que é a solidão necessária que o doutorando deve enfrentar na sua viagem... 2/4/2008 Já era - para eu estar láTudo marcado, tudo organizado para minha viagem. Iria embarcar no dia 23 de janeiro e no final de fevereiro faria meu exame de qualificação. Faltando três dias para o embarque, recebo uma mensagem da minha orientadora dizendo que as outras duas professoras que iriam compor a banca não conseguiram adequar suas agendas para data articulada. Minha viagem havia sido cancelada e agora seria necessário um novo ajustamento de tudo. O esforço para me organizar havia sido grande. Consegui uma ótima pessoa para traduzir meu projeto, arrumei minhas férias para coincidir com a data da viagem, passagem comprada, visto renovado, expectativa de rever os amigos... Tudo beleza, mas já era! Fiquei muito triste ao saber do desfecho, mas depois comecei a me re-equilibrar e hoje chego mesmo a admitir que houve um lado bom nisso tudo. Poderei economizar uma grana (caso fosse viajar em janeiro teria que fazer um empréstimo para cobrir as despesas, haja vista o custo da tradução e da universidade que ainda não consegui regularizar a situação) e ficar mais com Lucimar, os meninos que estão iniciando as aulas e Isabela, que tem apenas dois meses. Disso tudo eu tirei a lição que além de estudar sobre os ajustamentos face às situações imprevistas, preciso exercitar experimentos e experienciá-los em sua magnitude. Por isso que digo e re-digo: aquilo que estudamos deve dizer respeito diretamente às nossas vivências, pois ao mergulharmos de corpo e alma não produzimos apenas um conhecimento abstrato. Produzimos um conhecimento encarnado!
1/9/2008 Doutorado: um encontro de paixõesEu não sei ao certo se o que vou falar é algo que acontece com todos aqueles que se aventuram em um doutorado, mas é algo que aconteceu comigo e com muitos que conheço. Trata-se do encontro profundo e, em muitos momentos, apaixonante, que temos com as idéias ou com a obra de determinados pensadores. No meu caso particular, pensei que não fosse acontecer. Aliás, parecia até coisa de menino ou menina que acha que a (o) primeira (o) namorada (o) nunca vai rolar. Bem, mas eis que chegou sorrateiro, sem fazer alardes, sem expectativas, sem eu nem saber no começo do doc que iria me debruçar horas a fio. Eu tinha até um livro do autor que adquiri em 1990 e nunca havia aberto (pasmem!). Quando dei por mim, estava lendo textos, artigos, comprando livros e numa gulosidade sem tamanho. O incrível é que cada vez mais que conheço as idéias do autor percebo o quanto tem a ver com tudo que ando escrevendo. Fico realmente muito inspirado! Ao mesmo tempo, fico espantado o temeroso porque não é um autor tão fácil de apreender, não é um autor que está na moda e muitas das suas idéias não batem com crenças ou posições epistemológicas que eu possuo ou possuía. Entretanto, acho que isso não é um grande problema. Primeiro porque as nossas idéias e convicções precisam ser sacolejadas vez por outra e, segundo, muitas coisas do autor são ricas o suficiente para transformar e recriar minhas antigas perspectivas. Mas acho que vocês devem estar curiosos em saber quem esse autor, não é? Voilà Pierre Bourdieu!
Juazeiro, 09 de janeiro de 2008. 4/10/2007 Sacrifícios doutorais
Antes de entrar no doutorado ouvi algumas histórias um tanto que macabras, digamos assim, em relação à caminhada doutoral tanto aqui no Brasil, quanto pelo mundo afora. Eram histórias de vidas de alunos que desenvolveram doenças, de alunos que se separaram, de alunos que perderam o equilíbrio mental, etc. Lembro-me, inclusive, em um dos nossos primeiros encontros (encontro de “boas vindas”) na Université du Québec à Montreal – UQAM, quando uma recém doutora do programa deu seu depoimento. Ela falava do sofrido processo no curso e como isso havia mexido em sua vida pessoal, incluindo aí sua separação. Enfim, ela falava de perdas, de abrir mão de coisas... Ela falava de sacrifícios. Como eu já estava, mais ou menos, preparado para assumir meus sacrifícios doutorais, sempre ficava esperando a porrada segura. Talvez, por causa disso eu tivesse tido forças para atravessar as agruras que vivi nos dois primeiros anos do curso, sobretudo as relacionadas a distância do Brasil, a saudade da família, a falta de grana, a instabilidade de não saber se poderia terminar o curso, entre outras. O que não imagina é que ainda tivesse que viver novos sacrifícios. Recentemente, eu tive que diminuir minhas atividades profissionais, consequentemente, reduzindo os meus rendimentos. Pelo visto, então, essa história de sacrifícios deve durar até o final do curso. O que rogo, finalmente, é que os deuses sejam mais bonzinhos comigo e que aceitem as minhas “ofertas”, atenuando meus sacrifícios.
2/14/2007 Esvaziando o copoIlude-se aquele que pensa que um copo vazio nada contém e que o deserto não poderia ser fértil. Eis aí pensamentos que sempre me intrigaram e me seduziram. Certo dia, meses depois de ter começado o doutorado, conversava com um amigo (na verdade teclava com ele via msn) confidenciando-me que não estava lendo o tanto que antes. Dizia para Rafael, sentindo até uma certa surpresa, que estava contrariando minhas expectativas e que não mantinha o mesmo ritmo de leitura que antes. Na verdade, sentia uma mistura de sentimentos que ora oscilava para direção de uma coisa boa, como se a não obsessão por leituras me trouxesse algum alívio. A outra direção desse sentimento oscilava para a culpa, que me fazia lembrar da necessidade de ler! De qualquer forma, achava estranho não ter aquela compulsão para ler justamente no momento do doutorado. O tempo foi passando e hoje me apercebo com uma vontade nova. Uma vontade de devorar leituras! Uh, mas que fome sinto agora! O que será que mudou? O que aconteceu? Por que a vontade foi embora e agora voltou? Não sei se sou capaz de responder todas estas perguntas, mas constato algo que pode ter relação com essa história. Isto me chama atenção. Agora começo a me dar conta, ou pelo menos tenho a sensação, de que minhas opiniões, meus pontos de vistas e meus pensamentos são mais meus. Isto quer dizer que antes os sentia como se estivesse de certo modo reproduzindo-os. Agora não! É um pouco diferente. Sinto-os mais independentes, mais singulares, mais paridos por mim mesmo! Tudo isso então me faz refletir que, talvez o fato de ter dado um tempo no ritmo acelerado das leituras tenha proporcionado algo de muito bom para mim. Acho que ter dado esse tempo nas leituras permitiu que eu pudesse romper com uma certa neurose de conhecimento. E agora posso ler com mais afinco e ao mesmo tempo me apropriar melhor das idéias. Teria sido uma desintoxicação?! Bem, como disse, não sei se sou capaz de responder as perguntas, mas fica no ar alguns questionamentos para aqueles que estão fazendo doutorado e que precisam buscar suas originalidades no pensar, no argumentar e no produzir conhecimento: não seria importante, vez por outra, buscar um distanciamento dos outros (pensamentos dos outros, idéias, conhecimentos contidos nos livros...) e estabelecer um contato mais profundo consigo mesmo? Não seria necessário um distanciamento e mesmo um isolamento? Não seria oportuno um momento de esvaziar-se?
Petrolina, 14 de fevereiro de 2007. Existe no Brasil uma tradição no modo de se produzir pesquisa?Será verdade que poderíamos dizer que no Brasil existe uma certa tradição, um certo modo de se fazer pesquisa e produzir conhecimentos acadêmicos? Existiriam, talvez, fatores culturais e históricos influenciando a produção brasileira de pesquisas ou o modo das pessoas representarem e valorizem tais e tais aspectos da pesquisa? Eu não pretendo responder estas questões, embora as considere instigantes e até merecedoras de mais aprofundadas discussões e investigações, justamente porque podem ajudar a compreender certas interpretações que fazemos do nosso jeito de encarar a pesquisa, a produção científica e acadêmica. Não obstante, gostaria de compartilhar com vocês algo curioso e que me faz indagar e a propor tais questões. Trata-se da experiência que vivo todas as vezes que sou levado a falar a respeito do meu projeto para algum colega brasileiro. Geralmente, após anunciar ao colega que estou desenvolvendo um projeto de doutorado, este pergunta sobre o quê. Bem, até aí é mais do que óbvio que a pergunta se refira ao tema, ao objeto, ao interesse da minha pesquisa. Entretanto, logo em seguida, vem a curiosa pergunta: “qual é o seu referencial teórico?” ou “com quem você está trabalhando?” As vezes dá até vontade de dizer que estou trabalhando sozinho e que no momento não tem ninguém do meu lado, exceto, é claro, a minha orientadora! Outro dia eu estava teclando com uma colega, professora de uma universidade de Minas Gerais e que, assim como eu, está fazendo doutorado. Ao trocarmos figurinhas a respeito dos objetos dos nossos projetos, veio a fatídica pergunta: “qual é o seu referencial teórico, Marcelo”? Sabem o que eu respondi? Nada! Na hora, eu tive vergonha. Sabem por que? Sinceramente, não sabia o que responder. Eu tive que enrolar um pouco e só depois pude elaborar algumas respostas acerca dos referenciais que estou trabalhando. Realmente, para mim é difícil dizer na bucha qual o referencial teórico que estou envolvido. Provavelmente esta dificuldade tenha a ver com a formação que tive e que continuo tendo. Fiz meu mestrado no programa da Université du Québec à Chicoutimi - UQAC (Canadá) no Brasil – em convênio com a Universidade do Estado da Bahia – UNEB. E agora estou dando continuidade aminha formação (doutorado em educação) nesta mesma universidade, só que o programa agora é ofertado no Canadá. Lá, o que mais se valoriza é a metodologia. Normalmente, os colegas de lá tendem a se interessar em saber como o projeto está sendo construído, como será operacionalizado, quais os instrumentos utilizados ou como serão analisados os dados. Para a cultura de lá, até mesmo a parte da metodologia numa tese, normalmente, tem mais páginas do que o capítulo teórico. Possivelmente, isto diz respeito a tradição pragmática da América do Norte. A partir dessas experiências, suponho que no Brasil, o aspecto teórico parece ser mais valorizado nas monografias, dissertações e teses do que aspecto metodológico. Mesmo que isso possa contrariar alguns professores de metodologia da pesquisa. Concretamente falando é possível constatar que a parte teórica nas produções acadêmicas são, de modo geral, mais avolumadas do que a parte consagrada a metodologia. O gozo do pesquisador, do aluno e mesmo do orientador parece se dirigir mais para os referenciais teóricos e as reflexões conceituais do que para a discussão dos instrumentos, os critérios de seleção, os recursos para as análises de dados e a construção da coerência e consistência metodológica como um todo. Bem, volto as questões iniciais: essas observações e vivências não seriam indicativos para supor que no Brasil existe uma certa tradição, um certo modo de se fazer pesquisa e produzir conhecimentos acadêmicos?
Remanso, dezembro de 2006.
2/1/2007 Ufa! De novo me safei!Parece que esta minha história do doutorado é marcada por sucessões de incertezas, indefinições e desafios. Como alguns que estão acompanhando minha caminhada, sabem que atravesso o momento da qualificação. Isto significa que estou a produzir os três primeiros capítulos (a introdução, o capítulo teórico e o capítulo da metodologia) e, provavelmente, em setembro terei que defendê-los perante uma banca de professores. Esta etapa é que autoriza a coleta de análise dos dados. A banca diz: “percebemos que você está pronto e agora você pode ir fazer sua pesquisa propriamente dita”. Como estou nessa fase do doutorado e não mais nas disciplinas, pensei que haveria de pagar um valor menor à universidade. E por isso não estava preocupado em catar bolsas por aí. Para minha surpresa, recebi a fatura da UQAC no valor, mais ou menos, de R$ 10.000,00!!! Quase caí para trás! Não tinha a menor condição de arranjar essa grana! Fiquei novamente aflito e caí na incerteza. Não sabia se iria rolar a viagem para o Canadá, não sabia se iria terminar do doutorado de acordo com os meus planos... E essa história de indefinição meche muito comigo. Até porque sem saber se eu iria poder defender minha qualificação este ano, influenciava uma série de outras coisas em minha vida. Cheguei a escrever para minha orientadora dizendo que existiam apenas duas opções: ou conseguiria uma bolsa de frais de scolarité[1] da UQAC (algo muito difícil, pois já havia conseguido anteriormente) ou teria que adiar o doutorado. Claro que ela também ficou preocupada... Havia uma pequena chance de conseguir mais uma vez essa bolsa da UQAC, mas confesso que não estava assim tão esperançoso. Alguns dias depois recebo uma mensagem da minha orientadora dizendo que havia conseguido a tal bolsa. Ufa! De novo me safei! Fiquei muito contente!!! [1] Este tipo de bolsa cobriu quase todo o valor. Tive que pagar uma pequena parte daquele montante. Foi um valor abordável. |
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