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6/9/2009 DE VOLTA AO COMEÇO...
DE VOLTA AO COMEÇO Chegando perto do final da minha aventura doutoral (meu projeto é fazer a defesa no final deste ano – 2009 – ou no início do ano que vem – 2010) sinto a necessidade de retornar a alguns pontos dessa rica itinerância. “De volta ao começo” será uma espécie de retomada de algumas experiências marcantes e que surge agora como forma de despedida de uma parte importante da minha vida. Alguns capítulos seguirão...
DE VOLTA AO COMEÇO - 1 Parece que foi outro dia. Lembro da triste despedida no Aeroporto 2 Julho, em Salvador, quando embarquei pela primeira vez para o Canadá. Sabia que aquela primeira incursão em Terras do Norte iria demorar muito e que a saudade da minha família seria forte. Olhei para meus filhos, minha esposa, minha mãe, irmão e meu pai. Estávamos tristes. Respirei fundo, dei o cartão de embarque ao responsável, enxuguei as lágrimas e parti. DE VOLTA AO COMEÇO – 2 Ao mesmo tempo em que a tristeza era grande, a ansiedade da viagem e o gosto da aventura também competiam entre si. É difícil qualquer tipo de descrição para chegar ao que sentia naquele momento. Era importante também manter-me bem alerta para os míninos detalhes da viagem. Eu precisava estar atento a todos os passos, a todas as chamadas dos aeroportos, aos documentos que portava e os contatos anotados na agenda. Afinal, iria para um país estranho que eu mal sabia pronunciar uma palavra no idioma.
DE VOLTA AO COMEÇO - 3 Cheguei à Toronto. Se falar em francês seria uma complicação, imagine falar em inglês! O aeroporto era enorme e teria que fazer ainda uma conexão. Meu Deus! E agora? Eu fui que nem um boi que segue a boiada. Nessas horas a intuição e a aguda observação nos detalhes dos avisos são preciosas. Finalmente chegou a hora de entrar no avião que iria para Montreal. Opa! Algum problema. Esqueci a tesourinha na minha pasta! O sensor acusou e uma funcionária do aeroporto me interrogou. Em um primeiro momento não entendi muito que ela dizia. Perguntou se eu era italiano. Disse que era brasileiro e nos comunicamos em um tosco espanhol. Finalmente entendi que foi por causa da tesoura e disse que não haveria problema. A tesourinha poderia ficar como recordação.
DE VOLTA AO COMEÇO – 4 Chego à Montreal e lá está Fernando. Tenho uma sensação de alívio. Parecia que o pior havia passado. Afinal, encontrara alguém conhecido e que falava minha língua! Seu sorriso foi acolhedor (como sempre haveria de ser). Entretanto, o percurso não havia acabado. Faltava ainda enfrentar seis horas de viagem de ônibus rumo à Chicoutimi. Era junho de 2005, portanto, verão no Canadá e fazia muito calor em Montreal. O dia estava bonito. Fernando fez questão de mostrar rapidamente alguns pontos do centro da cidade. Era o tempo suficiente para aguardar o horário de embarque no ônibus. Finalmente nos despedimos e entrei no ônibus, novamente solitário e indo para um lugar mais longe e mais desconhecido ainda. DE VOLTA AO COMEÇO – 5 Estava tudo acertado. Minha orientadora havia organizado minha estada nos primeiros meses em Chicoutimi. Faria um curso de imersão em francês. Era o programa de verão da UQAC, versão 2005. Ficaria hospedado na casa de uma família durante o período do curso, os três meses. A pessoa iria me pegar no terminal rodoviário. Georges Boivin era o seu nome. Não tínhamos idéia de como era um e o outro. Cheguei à Chicoutimi muito cansado. Foram três horas de Salvador à São Paulo, onze horas de vôo de São Paulo à Toronto, duas horas de Toronto à Montréal e seis horas de ônibus de Montreal à Chicoutimi (sem contar as horas de conexão e espera). Por outro lado, a ansiedade era tanta que não me dava conta do esgotamento. Georges me aguardava em seu bonito Chrysler. Sem nos conhecer, adivinhamos um ao outro. Trazia umas duas malas pesadas, fora uma mochila e minha pasta. Era bastante coisa, mas tudo deu no carro. Agora estava eu lá! E para conversar? Meu Deus! Que aflição! Lembro que Georges fez questão de mostrar um pouco a cidade. Levou-me até o cruzeiro, onde pude apreciar a beleza daquela encantadora cidade a beira do rio (qual?). Senti frio e George riu de mim. Afinal, era verão no Canadá!
DE VOLTA AO COMEÇO – 6 Meu primeiro dia de aula. Estava uma semana atrasado. Havia seis níveis de cursos e o meu era o nível um. Nós éramos considerados os bebês do programa. Minha sala era formada, em sua maioria, por jovens de 18 anos e quase todos eram anglofônicos canadenses. Alguns eram imigrantes ou filhos de imigrantes. Havia também estrangeiros como eu. Lembro de uma estadunidense e, lógico, meu primeiro e grande amigo iraniano, Behdad Balazard. Como era difícil para mim toda aquela adaptação. Sentia-me totalmente incompetente para aprender o francês. Tinha a sensação de que nunca iria ser capaz de aprender. Eu era um dos mais velhos, professor universitário e iniciando um programa de doutorado, mas isso tudo só me fazia sentir pior. A auto-cobrança pesava. Eu sabia que não tinha muito tempo para aprender o mínimo do francês, pois as aulas do doutorado começariam em setembro daquele ano. Aprender uma língua na situação que me encontrava foi um parto a fórceps. Vivi, literalmente, uma regressão não só por estar iniciando uma nova língua. Percebia que meu comportamento regredia. Meu humor e meus sentimentos oscilavam bastante. O sentimento de insegurança era muito para mim. Às vezes tinha horas que achava que não iria conseguir. Somado a isso, vivia toda sorte de instabilidade na minha universidade e lutava para ter uma bolsa que viabilizasse meu projeto de doutorado no Canadá. DE VOLTA AO COMEÇO – 7 Tive a sorte de encontrar boas pessoas e ser acolhido. Tenho essa perspectiva em relação a vida. Sempre acho que a vida me reserva boas coisas e costumo, não raramente, deixar que a vida me leve. Sempre deu certo! Os colegas estrangeiros, os colegas brasileiros que lá habitavam, funcionários e professores da UQAC e pessoas da própria cidade, todos sempre tiveram algum apreço por mim. Entretanto, algumas pessoas foram muito, muito, especiais como: Marta Anadón (minha orientadora), Carlos Borri (seu marido e companheiro de boas prosas), Corina (filha de Marta e minha colega de doutorado), Jean-Robert Poulin (professor da UQAC e amigo pescador), Martine Maltais (minha querida amiga que tanto me ensinou sobre a educação infantil), Behdad (meu primeiro e grande amigo no Canadá), Justine (amiga do Camarões e colega do doutorado), Georges (meu senhoril), Fernando (amigo e colega da UEFS), Régis (cearense que virou canadense), Carlos Ores (peruano que fazia seu mestrado em engenharia de minas na UQAC) e tantos outros que não conseguiria listar todos. DE VOLTA AO COMEÇO – 8 Foi uma verdadeira luta batalhar por uma bolsa. Da minha universidade tive uma ajuda de custo mais o salário. Cheguei a me inscrever duas vezes para obtenção da bolsa CNPq. Na segunda inscrição, passei para segunda fase (entrevista) na repescagem, porque escrevi protestando o resultado. Fui para Brasília fazer a segunda etapa e na entrevista ouvi de um dos membros da banca que o meu tema já era muito estudado no Brasil. Fui classificado, mas não contemplado para bolsa. Lutei tanto e “morri na praia”. Por um lado ficou o aprendizado e saí dessa experiência com a “pele mais grossa”. O que me salvou foram as bolsas parciais que obtive na própria UQAC - graças a minha orientadora. Em troca, fazia traduções (francês-português) para ela e para outros professores. Além disso, trabalhei como professor de português e ajudante de jardinagem (na casa de Jean-Robert). Tudo isso ajudava a pagar o programa do doutorado (para estrangeiro era muito caro, mas se comparado com outros programas pagos de outros países não é caro) e a me manter no Canadá.
DE VOLTA AO COMEÇO – 9 Que alívio eu senti quando minha orientadora retornou de suas férias e a reencontrei em Chicoutimi. Não estava mais desabrigado. Sabia que havia um porto seguro perto de mim. Mas como essa aventura doutoral era sempre uma caixinha de surpresas, novas coisas me aguardavam. Chegou a hora do início das aulas do doutorado. Meu Deus! Lá vou eu de novo! Lembro do primeiro dia de classe. Disse para mim mesmo: “Marcelo, que merda você veio fazer aqui!?”. A coisa piorava quando eu tinha que falar. O meu francês ainda era muito ruim para ter um desempenho razoável em sala de aula (entendia bem, mas fala com limitações). Tive vontade de me transformar em uma formiga e ficar no canto da sala sem ninguém me ver quando chegou a hora de apresentar meu projeto aos colegas e a banca de professores. Mais uma vez sobrevivi.
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